domingo, 2 de setembro de 2012

VAI QUEM SABE ...


Nossa Getulina, na áurea fase  da rubiácea, quando a sua   população era o triplo da  ora existente,  teve , dentre outros bons médicos, um homem iluminado , com seus defeitos e virtudes, pois era mortal, mas, as virtudes  suplantaram e muito os seus eventuais erros, cujo semblante é relembrado por todos que o conheceram, dele se beneficiaram com seus esmerados serviços de  profissional, desfrutaram de sua sincera amizade, e muito aprenderam  com  seus sábios conselhos sobre o viver melhor, razões pela quais  nunca será esquecido!


                        Tinha ele na época, o seu novo corcel amarelo e preto, e em marcha pesada percorria não só as ruas poeirentas e descalças de nossa urbe, como também as  estradas vicinais de nosso município, que como todos sabem, possui uma extensão geral,  de mais de quinhentos quilômetros.

                        Ele não se importava muito com o vil metal, queria auxiliar,  prestar serviços aos seus semelhantes, não distinguindo ricos e pobres, os atendia da mesma maneira , sempre empenhado em ajudá-los, procurando minorar o desespero e o sofrimento  alheio.

                        A qualquer hora , do dia ou da noite, em qualquer lugar, lá ia ele, às vezes até em lombo de burros, cavalgando à caminho do local necessitado, ora para fazer partos, ora para aplicar soros, injeções, curativos , em pacientes, em que   alguns,  via serem portadores das  mais graves doenças.

                        Uma coisa era certa, seus precisos diagnósticos nunca foram contrariados, e quando observava fugir  o caso de sua alçada, encaminhava, imediatamente, o paciente para os maiores centros, inclusive para a Capital do Estado, a fim de se submeterem a exames e tratamentos médicos mais especializados.


                        A sua competência médica ultrapassou fronteiras, não só de nosso Estado, como do nosso País.

                        Relembro, que um fazendeiro rico, morador em nosso  vasto município, foi para o Exterior, a fim de  consultar-se  com médicos estrangeiros, sobre o mal que contraíra, e que temia ser grave.

                        Acho que foi na França, quando após examinado, o especialista lhe perguntou, onde morava ?

                        Respondeu , que morava no Brasil, precisamente, em um município situado  no interior do Estado de São Paulo, cujo nome era Getulina., entre as cidades maiores que eram : Lins e Marília.


                        Estremeceu, admirado o fazendeiro do Brasil, quando o famoso médico estrangeiro lhe disse : - E o senhor veio tratar-se  aqui, sendo que no Brasil, mais precisamente na pequenina Getulina, tem o melhor médico para  cuidar de sua doença ?

                        O senhor  deve conhece-lo, e lhe disse o nome do nosso famoso Clínico Geral... recomendando que voltasse e o procurasse, só assim iria sarar mais cedo...

                        Em  tarde de clima ameno, fui visitá-lo, e durante o bom papo, me contou, que  no início de sua carreira, em uma certa manhã nublada, que a noite anterior havia chovido muito, atendeu ao chamado de uma mocinha, ela  se encontrava aflita, em frente ao portão de sua casa,, solicitando que fosse, de forma imediata  socorrer sua mãe, em Santa América, no Bairro “Vai quem Sabe”, pois a mesma  já se encontrava em trabalho de parto, necessitando da ajuda médica, pois o neném, seu irmãozinho,  estava em delicada posição, que a parteira não estava dando jeito... havia chovido muito à noite, e a estrada apresentava um lameiro considerável...que ela havia pego uma carona e viera até a cidade...


                        O Doutor, pegou seu carro,  sua valise, contendo medicamentos com   alguns instrumentais e rumou , juntamente com a garotinha para o atendimento necessário...

                        Quando se estava para chegar perto do rio, a menina, que era muito falante e esperta, e viera conversando o tempo todo com ele, disse que o seu nome era Rosa, mas chamavam-na  “Rosinha”; depois,   avisou ao médico, para tomar cuidado que a ponte  havia caído, e que ele deveria parar o carro, descer, atravessar o rio , deixar que ela ficasse ali tomando conta do veículo, enquanto ele fosse até a Fazenda Vinte de Maio, arrumar um cavalo e ir socorrer sua mãe e o novo irmãozinho, lá no “Vai quem Sabe”.


                        O Doutor, deixou a menina  lá no seu carro ouvindo o rádio,  e fez o que ela pediu...

                        Na Fazenda Vinte de Maio, emprestou um bom cavalo, que lhe foi arreado rapidamente, e desse mesmo modo tomou rumo que destinava, a fim de auxiliar no parto que se dificultara...


                        Depois, quando chegou, foi  recepcionado pelo marido da parturiente, que agradecia, aos céus, a sua presença ali... dizendo: -  Foi  Deus quem o mandou....

                        O médico disse que fora a sua filha, Rosinha, quem o chamou e o acompanhou  até o rio, relatando o que estava acontecendo e pediu que viesse urgente, o que foi feito....


                        O  sitiante ficou estarrecido.... enquanto o Doutor se dirigia ao quarto, e auxiliado pela velha parteira, com muito sacrifício, fizeram o parto, salvando a mãe e a criança ... Realmente nascera um meninão...(  O médico até pensou...a menina é mesmo danada, advinhou até o sexo do  nascituro !...).


                        Horas depois, tudo mais tranquilo, serviram ao Doutor um bom café, feito no fogão à lenha, com delicioso bolo de fubá,  e dentre os insistentes e reiterados agradecimentos, sentados na sala , quando a comadre falava que fora Deus, Nosso Senhor, que o mandara até aquele local, pois seus  práticos conhecimentos de parteira,  não ajudariam salvar mãe e filho, se o médico não chegasse...


                        O médico disse que fora Rosinha, quem o avisou e chamou que viesse socorrer a mãe e o irmãozinho, pois,  estava prestes à nascer e o caso se complicara ...inclusive ela ficara tomando conta do veículo, lá no outro lado do rio...vez que a ponte caíra...


                        O sitiante, emocionado,  e a parteira admirada, juntos, disseram não ser possível !


                        E o médico, apontando o porta retrato que estava sobre a estante, com a foto da  menina,  disse, foi ela , a Rosinha, quem foi me chamar...


                        Doutor , disse o pai de Rosinha, lembra quando o senhor estava viajando, há mais ou menos cinco anos atrás, minha menina ficou mal e morreu... Rosinha já não vive há mais de cinco anos, não pode ter sido ela quem o chamou !....


                        Foi ela sim, e ficou lá no carro, tomando conta, foi ela sim...


                        Vamos lá !

                        O médico e o pai da  menina, depois do verificarem se estava tudo bem com a mãe e o menino, saíram  e foram até o carro, que se encontrava do outro lado do rio...


                        Lá chegando, começava a chuviscar, o carro estava  com os vidros fechados, a chave no contato, e nele, nem nas adjacências,  ninguém!.... (Apenas, o rádio do carro continuava ligado e,  no momento, em que abriram as portas,  começou a tocar uma linda valsa, cantada por Orlando Silva, cujo nome é Rosa...).



                        Aqui   entre  nós, atualmente, o sitiante não mais mora em nosso município, foi com sua família, talvez,  para o Estado do Paraná, a parteira e o  médico  já morreram, só restou o seu nome em um estabelecimento público do município relativo à saúde, e esta história, que ele mesmo  me contou, e relato  hoje à vocês.

                       
                        O Doutor, mesmo após, algumas doses de um bom wyski,  não era homem de mentiras....

                                                       Milton  Hauy 

terça-feira, 31 de julho de 2012

MISTER NIGER


Relembro com saudade aqueles dias que antecediam  o aniversário da Escola Coronel Alfredo Marcondes Cabral de Getulina.

                    Vendo as crianças hoje desfilarem pelas ruas de nossa cidade,  divulgando o “Programa  Escola da Família”, me deu vontade de recontar  - com uma saudade imensa , uma das maiores apresentações , criadas por alunos, e por verdadeiros Amigos da Escola - na história de nossa terra e região.

                    Aconteceu no final da década de 60, juntamente com os amigos Oldenir (Bill) Toledo Nocchi e Pacini  Cirino da Costa, idealizamos promover uma atração diferente naquele ano, proporcionando expectativas em torno das comuns festividades que  a cada ano se realizava.

                    Contamos, também, dentre outras, com a colaboração do colega e amigo Linconl Chinchila Martins, que além de ex-aluno do estabelecimento  festivo, agora estava gerenciando a filial local das Lojas  Riachuelo, que nos deu a publicidade e ainda ofertou um lindo brinde para quem adivinhasse a nacionalidade do “Mister  Niger” – denominação que demos ao artista principal daquele evento memorável – e que quase todos pensavam ser estrangeiro. 

                    Com isso a juventude estudantil de Getulina tornou-se mais vibrante ainda, crescia a grande ansiedade em torno do espetáculo, que no início parecia simples, e que começou a avolumar-se à cada dia , vindo culminar com a chegada de um telegrama – tivemos a ajuda do hoje saudoso Lupércio Becegato,( então Agente do Correio local) e, do nosso irmão Toninho Mengato, que aí se encontra , para juntamente conosco recordar aquela grande manhã, cujo espetáculo foi realizado no Cine  Paroquial  São Luiz (Cinema do Padre) , e que nos fora, naquela ocasião, gentilmente cedido pelo ora pranteado Padre Lupércio Pereira Simões, o Pároco de então, - que dizia : “Chegarei no dia marcado vg pela manhã pt. Abraços pt. Mister  Niger.”

                    Cumpre esclarecer antes, que soubera que um estudante de engenharia possuía uma fantasia premiada em Lins, e que o mesmo morava lá em uma Pensão; tratei logo de procurá-lo ,e ele me emprestou a rica fantasia de um diabo, com rabo e máscara de borracha, além de uma bela capa de cetim em preto e vermelho, enfim uma maravilhosa peça, que de antemão sabia que agradaria em cheio !

                    Mas, como antes, já havíamos brincado com várias pessoas em nossa praça , hipnotizando algumas delas, pairava qualquer coisa no ar, ou melhor, na mente delas, que eu poderia ser o tão esperado artista.

                    Tratamos logo de desfazer essas  idéias, para não quebrar o encanto preparado da surpresa.

                    Havia a necessidade de um aparelho de som, a fim de tocar a música  que usávamos para hipnotizar , e foi o Pixoxó quem nos emprestou uma Sonata – novinha, ainda na caixa, sem uso – para completar o brilho do espetáculo.

                     Certa noite, quando retornava de Lins, por volta das onze horas, o Bil e o Pacine me aguardavam nas proximidades do Fórum , para que fossemos ensaiar e preparar o Salão , para o tão  aguardado Show, que seria na manhã seguinte.

                    Rumamos direto ao Cinema do Padre, vez que ele já nos tinha emprestado as chaves do prédio, e fomos instalar o som, no  majestoso palco que lá havia ( como todo mundo sabe, atualmente o referido cinema não mais existe, dando lugar ao Supermercado Caliani, e o dito palco ficava ali onde hoje está a parte de frios do mencionado estabelecimento comercial).

                    Não cuidamos  de verificar a voltagem do salão com a do aparelho, e eis que quando o Pacini ligou a Sonata na tomada da parede , foi  bruscamente arremessado  com caixa e tudo, acompanhado  de um estrondo, fazendo soltar faíscas  e a pegar fogo no aparelho, que por sorte, logo apagamos, pois havia água nas proximidades. Quase que o fogaréu se propaga até as cortinas, e aí seria o caos... iríamos acabar bem antes com o cinema do Padre, e de forma mais triste...

                    Juntamente com o Pacini e o Bil, caimos nós desesperados...como fazer (?!?) , parece que havíamos estragado a sonata novinha do Pixoxó... e, além de ficarmos sem som, teríamos que pagá-la... sem ter dinheiro...

                    Já se passava da meia noite, quando uma feliz idéia nos alentou... – Vamos até a  “Casa do Rádio” , do senhor Américo Katsumi Aoki que era técnico, entendido no ramo, para ver se ele daria um jeito na coisa – ele era  pai e tio de colegas nossos : Renê, Tustiã, Sábaro , Minoru e outros pertencentes à ilustre Família – a então loja  ficava ali, onde hoje temos o Foto e Vidraçaria do Mirão , na Rua Vergueiro de Lorena.


                    Apesar de notarmos que todos dormiam, acordamos o sr. Américo, que sempre fora prestativo, nos atendendo com aquele inconfundível sorriso oriental, convidando-nos a entrar, e passou a vistoriar o aparelho do Pixoxó, com os seus especiais aparelhos.

                    Para sorte nossa, o estrago, apesar do fogaréu, não havia sido muito, apenas queimara uma pequena peça, pois a voltagem do salão era de 220 e a do aparelho 110 volts., motivo do curto circuito, que nos assustara.

                    Em suma, não tinha no momento a peça certa para substituir a danificada, mas, colocou para tentar sanar temporária e precisamente  uma usada, a fim de pudéssemos usar a Sonata no Show, comprometendo-se a pedir uma peça original, para ser  colocada depois, o que foi feito.

                    Com isso, fomos dormir e prepararmos para o que viria nas próximas horas daquele dia ...

                    Perto do horário de início do Show, de manhã, vimos que nas proximidades do Cinema do Padre, que  a sua frente,   já estava apinhada de estudantes, de ambos os sexos e de todas as idades, num alarido alegre e contagiante, como são  quase todos alegres os alaridos estudantís.

                    Pela cidade, naquela ocasião, também estava sendo realizada uma promoção  com vendas de títulos patrimoniais, que ajudariam na construção da primeira piscina da SAG – entregues pela Diretoria à uma Firma de fora especializada  no gênero , cuja turma  de vendedores se espalhava  por nossa urbe; oportunidade, que pedi à um deles, quando estava abastecendo seu veículo no “Posto Macedo”(onde hoje está o Banespa), para que desse a volta, pois o carro estava com a placa de São Paulo, e não era conhecido pelo nosso pessoal, principalmente o estudantil – e levasse a minha maleta até o cinema, que estaria esperar em frente, pedindo para que ele descesse do carro, acenasse para os alunos, e falasse algumas palavras em castelhano, para iludí-los, contando-lhe sobre o eventual espetáculo que iria se realizar, e ele topou  na hora, sem nada me cobrar pelo trabalho; pedi para que entrasse pela porta da frente, e depois saísse pelos fundos, passando pela Casa paroquial, o que realizou, de forma perfeita.

                    Os estudantes adentraram o local, em seguida, acomodando-se nas poltronas do cinema, cujo palco estava com a sua enorme cortina vermelha, fechada.

                    No início, apresentamos alguns números musicais, e rápidas cenas humorísticas (esquetes) , tendo como protagonistas alguns estudantes da própria escola, que nós havíamos ensaiado antes, para tais atos.

                    Depois... o momento esperado e culminante – contamos também com o auxílio dos então funcionários, hoje tão saudosos, Cridio  Zanco e Lidia da Silva Laraya – enquanto o Cridio , embaixo do palco providenciava uma lata com pólvora, para que logo após o estrondo da bomba que seria acionada,  o Mister Niger aparecesse no meio da fumaça, de  maneira triunfante ( o que  aconteceu, e ficamos sabendo posteriormente, que o Cridião se queimara ao acender o fósforo e por na lata de pólvora, chamuscando-lhe as mãos e o rosto... – como sofrem os artistas e seus auxiliares,nos bastidores,heim ?  Muitas vezes sem ninguém saber....

                    Ao vislumbrarem  no palco aquele diabo, a molecada se assustou, e alguns da platéia, até correram para fora do cinema... com pavor  do que viam...


                    Mister Niger começou hipnotizando pessoas da platéia, que subiam ao palco e sentavam em  várias cadeiras ,ficavam ouvindo a música , tocada pela sonata do Pixoxó, que de som meio fanhoso, lançava no ar  : É tão sublime o amor”, apenas orquestrada.

                    Mas, como  a apresentação já estava combinada com o Bil, o artista tratou logo de dispensar a moçada , deixando os conformes e passando para os finalmentes...


                    O Bil, havia há poucos dias, antes da tal apresentação, passado por uma delicada cirurgia em um dos ouvidos, estando em convalescência, e mesmo assim, compareceu ao espetáculo fingindo ser mero espectador , que fora chamado ao palco, a fim de ser  hipnotizado.


                    Não demorou muito, depois das preliminares introduzidas pelo Mister Niger, para que o Bil  adormecesse....momento em que fora solicitado à platéia um de seus representantes , para a verificação se  ele estava ou não dormindo.

                    Sobe uma das mocinhas, não me lembro quem... (mas sei que o Bil dela jamais esqueceu...) e começa  em dar-lhe uns beliscões, inicialmente nos braços, estes eram fortes - pois o Bil praticava box e vários outros exercícios- depois,  como por azar, ela foi diretamente beliscar uma de suas  orelhas, coincidentemente a que houvera sido operada – gente ! foi um verdadeiro chute no ... braço...digo, apesar de ser com os dedos de uma das suas mãos, um pé na orelha ! –  hoje,  até no falar, ou contar, sinto as dores que sentiu o Bil  naquele momento!... – e ele aguentou firme, sem gemer, mas, via-se cair de seus olhos um montão de lágrimas...

                    Tratei logo de tirar a malvada de cena, e depois apresentamos o que se estava previamente ensaiado, tanto na parte de hipnose, como de telepatia... foi um  enorme sucesso !


                    Aqui  entre  nós,  se tivéssemos continuado com as apresentações (embora mais uma vez, posteriormente,  com igual êxito, a fizemos no Clube Linense      , o que é história para uma outra vez...) por esse Brasil afora, acho que estaríamos  ricos e famosos, tanto é que o tal de Mister “M”, que a TV apresentou, e apresenta  de quando em vez, não dá nem para engraxar a bicanca do Mister Niger !

                    Não posso esquecer de mencionar algumas  outras coisas muito importantes e marcantes : a primeira, que ao ir devolver e agradecer o empréstimo da fantasia do diabo ao estudante de engenharia em Lins, soube que ele havia fugido de lá, por não ter dinheiro para pagar os débitos que contraíra na praça, pois até a dona da pensão ele não pode pagar... enfim, não devolvi a tal fantasia, e considerei o Mister Niger uma singela homenagem ao tal estudante, que talvez, nem chegou a ser engenheiro, e cujo nome nem fiquei sabendo, mas, lhes somos eternamente gratos, esteja onde estiver !

                    A segunda, é que depois. O seu Aoki consertou a Sonata, e ela ficou perfeita ! Devolvemos ao seu dono, com os mais profundos agradecimentos; e o nosso prezado amigo Pedro, o Pixoxó, muitos anos depois morreu,( Deus o tenha !)  sem saber o que tinha acontecido com  o seu aparelho de som , na noite que antecedeu a inesquecível apresentação artística acima narrada.

                    O que restou de bom, além de outras  nossas fantasias, é que, de vez em quando, encontramos  um dos alunos daquela dourada época , e ele nos diz : - “Jamais me esqueci do Mister  Niger ! ou,

                    Aquela apresentação marcou bastante  a nossa juventude, valeu !...”


                                        Milton  Hauy 

domingo, 10 de junho de 2012

DE REPENTE... MAIS UM REPENTE

AH! O mês de junho, das manhãs ardentes, com suas noites tão românticas, tão dolentes, cheias de estórias e histórias, com crendices e disse me disses, fogos de artifícios, músicas, quermesses , os terços  em louvor aos Santos Juninos, quadrilhas,flerts, com olhares trigueiros, das moças, rapazes, homens , mulheres, crianças, na cidade, nas capelas, e nos terreiros das fazendas, que tem e tinham café, que o povo chega de carro, cavalo e à pé...
Isso me faz lembrar, dentre outros, o seu Quinzinho, o sempre pranteado Joaquim Torres Mendes, um homem bom, que fora honesto funcionário municipal, depois aposentado,sempre disposto e sorridente, que marcava as quadrilhas prá gente, em todos os lugares, tanto na cidade, como na roça, sob os olhares apaixonados dos integrantes , que sonhadores  participavam, com emoção e descompassado coração, no compassado ritmo dançante, que nunca sai danossa mente, fazendo o passado virar o presente, e aparecer em cenas deslumbrantes, igualzinhas como acontecera antes...pondo a gente a sonhar confuso, sem nunca despertar...e reaprender a amar...o que ficou no desuso.
E as primas, as amigas, os amigos, os namorados e os variados pares, vão virando rimas, em prosas, sonetos e poemas, preenchendo velhos temas, que vocês tem que aturar, desse poetinha , inveterado sonhador, metido a repentista, que muito amou e viveu querendo ensinar, como é fácil e difícil a gente gostar de quem não gostava da gente, e agora, às vezes até chora, ao ler, nos ouvindo a falar, precisamente aquilo que gostaria de ter feito, ou de ter tido, a oportunidade de realizar...
Lá na festa da roça, mesmo aos que vieram de carroça, corria solto o quentão, passando de mão em mão...e assim como a canjica, a pipoca , o amendoim, os doces e a mandioca...
Ouço, então, cochicho,riso, zunzum,e depois alguém pedindo mais um , prá animação pessoal, ao lado o povão vibra e  grita, é festa no arraial !
Enquanto a sanfona chora, sob a luz do luar, há estrondos  do foguetório, pela noite afora, e os pares continuam a dançar...
As muié rezadeira oram, e cantam o terço ou rosário, na capela diante do santuário...
E a Periquita, que é prendada e bunita , com seu vestido de chita, pede aos Santos, pede aos treis, que a ajude a desencalhar de veis, e logo lhe traga o seu bem amado, “pois, todas as festas, são tristes, sem  ter um amor ao nosso lado”...
Também há os pedidos dos solteiros, velhos,  e feios, que também são gente, e têm coração...que são bonitos por dentro, que lhes ajude Deus, Jesus, Nossa Senhora, atendido os pedidos, intercedidos  pelos Santos Juninos, que façam surgir hoje, agora, o seu pé de meia, ou cara metade, que para amar, não se tem  idade...
Pelo que se vê e se via, ninguém estava querendo ficar prá titio ou titia !...
E o seu  Quinzinho, todo imponente, ia dirigindo e divertindo a gente, em brilhante fulgor, nos belos sons da quadrilha, da sanfona que o seu Néco dedilha, com maestria e furor !...
No alto do mastro tremulam as bandeiras dos Santos: Antônio, Pedro e João, o povo todo festeja... no escuro, um par de jovens se beija, no arrasta pé aqui do chão...
E de longe, se vê e ouve Seu Quinzinho, marcando a quadrilha e comendo romã, gritar sonoramente: “ Balancez ! Tour !  Em Avant ! “...
E a grande fogueira , mesmo ficando pequena (emocionante  cena ! ) ajuda a iluminar a capela, o terreiro, e a alegria  daquele povo festeiro, contagia à todos, animadamente, que vendo terminar a festa presente, vai pensano, triste  e  contente, na festa do próximo  ano !
Aqui  entre  nós,  prá terminá, diga sem medo :
Viva  Santo  Antônio,
                                   São    João  
                                                                       e,  São  Pedro  !


                                                                       Milton  Hauy

domingo, 27 de maio de 2012

JUNHO OUTRA VEZ...


Estamos chegando, novamente, no mês  de junho, já entremeando o novo ano, que sem querer vai ficando, também, velho.
É o mês das manhãs ardentes, como as fogueiras e festas que, durante as festivas e calientes noites, comemoram as datas marcantes  dos Santos , cujas bandeiras , bem enfeitadas, erguemos nos mastros, sob a rajada de aplausos e fogos de artifícios...
O primeiro é Santo Antônio, que dizem ser o santo casamenteiro, e em data de véspera, cuidam as pessoas que necessitam de sua ajuda, de procederem às variadas “simpatias”, ora colocando mel em um prato, e nele o nome da pessoa amada, para que o   sereno e a luz da lua, possam favorecer na realização do desejo almejado; outras, furam uma maçã e depois de colocarem dentro dela, mel, açúcar  e o nome da pessoa desejada, também procuram coloca-la sob a luz da lua, para no dia seguinte verem se a “simpatia” deu certo....
O segundo santo é São João, que aparece na bandeira como um menino loiro, do cabelo encaracolado, com um carneireirinho no colo e, dizem ajudar muita gente em diversos pedidos...
O terceiro santo junino é São Pedro, o santo que possui as chaves do céu, e as tem nas mãos... depende do Pedroca a sua entrada ou não no Paraíso, viu ?
E o povo costuma  festejar durante todo o mês de junho, os três santos, o primeiro no dia 12 e 13, o segundo no dia 24 e o terceiro no dia 29 ou 30, promovendo  as fantásticas e concorridas Festas Juninas : com  rezas, terços, quermesses, barracas, bandeirinhas, prendas, rifas, sorteios, leilões, danças, músicas, quadrilhas, bailes, fogueiras, muitos fogos de artifícios, ”simpatias”, etc.
E os busca-pés, que atormentavam  as moças, fazendo com que elas saíssem correndo  se esconder ?
Também as rodinhas de fogo, que acesas  giravam, giravam, proporcionando um espetáculo maravilhoso, acho que não mais existem ... assim como os balões, que enfeitavam o céu, assanhando a molecada, nas lindas noites juninas, nos ofertando uma visão romântica e colorida, mas, que causavam incêndios, razão de serem proibidos e extintos...
“Pula  fogueira , Yayá... Pula fogueira, Yoyô...
Cuidado para não se queimar...
Olha que a fogueira já queimou
O meu amor...”

Recordamos com imensa saudade, as animadas , concorridas e tradicionais quermesses no largo da capelinha de São João Batista, realizadas durante todo o mês de junho na Vila São João em Getulina.
Aquelas noites frias, além dos enfeites tradicionais aqui em baixo, era enfeitado, também, pela lua , lá em cima, que vagava pelo vasto céu, bordado de estrelas... toda cheia, e nos enchendo de maravilhas, sonhos e ilusões...
Tudo parecia ser mais romântico...
“ As noites de junho, tão lindas...A festa na roça...e o céu enfeitado...Pois, todas as festas são tristes,
Sem   um  amor ao nosso lado...”

Passo a rever os sorrisos das moças, sob os olhares curiosos e apaixonados dos rapazes, circulando , por entre a Praça da Capela, o coreto, e as barracas, todas muito bem enfeitadas , onde haviam pessoas de todas as idades, participando da festa , ouvindo as músicas juninas, ora da Banda Municipal, ora dos alto falantes, entremeadas de ofertas :...”de alguém para alguém, com muito amor...simpatia...ou, carinho...” – os mais íntimos , ou menos, os mais tímidos, através de “Correios Elegantes”, que eram  bilhetinhos de papéis coloridos , enviados por meio da garotada, com as declarações e mensagens de afeição, de um para outro... – daí, muitas vezes, nasceram paixões desenfreadas, que acabavam em encontros, namoros... e até, casamentos...; na maioria, foram apenas, casos passageiros, enveredando por outros caminhos, restando apenas imensas recordações...
“ Capelinha de melão... é de São João...
É de cravo, é de rosa, é de manjericão...”

De entremeio, interrompia-se as músicas e mensagens, para as realizações dos memoráveis leilões, e das cantadas dos bingos, sorteando brindes aos inúmeros participantes, que colaboravam com a reforma e melhoramentos da Capela.

“ Eu garanto que São Pedro, Santo Antônio e São João
São da mesma opinião...(bis)
E, quando um balão for subindo, pro céu estrelado...
Tu podes me dar um beijinho...
Que eu juro que não é pecado...”

Além da grande fogueira, tinha o escorregadio , e até engraçado, pau de sebo, onde a meninada tentava alcançar, no topo, o grande prêmio, mas, a maioria, não conseguia, escorregava e caía... – assim como nós, em realidade, na vida, e, em nossos inatingíveis sonhos...

“Coqueiro, eu te compreendo o sonho inatingível
De quereres subir ao céu...mas, prende-te a raiz...
Esse teu desejo  de querer o impossível...
É igual a este meu, de querer ser  feliz...”

Uma das coisas, que também, foi marcante nas festas juninas da Vila São João, dentre muitas outras, era a Barraca do Quentão, sempre gostoso, feito e servido  pelos eficientes e simpáticos  Cotarellis : Silvio, Orlando e Frederico, sendo que apenas este continua vivo, e talvez, ainda recordando, como nós, dos bons tempos , que já se foram, mas, continuam reluzentes em nossas mentes, aguçando ainda mais no meio de cada ano, quando as rezas, músicas, bombinhas e rojões começam a anunciar a festança novamente, embora em outros lugares, avivando as eternas lembranças...de um tempo distante, mas, como se fosse ontem, ou no  ano que passou...

Aqui entre nós, hoje, vamos encontrar o passado, no tempo presente, buscando no sincero e espontâneo sorriso dos jovens, que vivem  as nossas mesmas emoções, renascendo pois, em outros corações , de maneira diferente, mais moderna, em noites de muita música e luz, mas, descoloridas da ingenuidade , dos segredos, e tabus de antes, cujas perspectivas e expectativas ilusórias, eram anseios e sonhos melhores e, desculpe-me a sinceridade, bem mais bonitos, apesar de tudo...

Chegamos nós, chega você, e chegarão no futuro as pessoas de hoje, com uma bagagem imensa de enormes e ocultas lembranças, que fazem e farão transbordar a saudade de todos, e de tudo que vivemos, rogando à Santo Antônio, São João e São Pedro, que não deixem apagar a grandiosa fogueira, de coisas inesquecíveis, que ardem em nossa mente e em nossos corações...


                                                                                              Milton    Hauy

domingo, 6 de maio de 2012

UMA INESQUECÍVEL MULHER


Era pequeno e você me amava, e eu adorava você !

Tinha um medo danado de perdê-la...
Me  ensinastes  a dar os primeiros passos, a falar as primeiras palavras, respeitar a Deus e ao próximo, orar agradecendo o pão de cada dia...E então, pedia ao Criador para que a protegesse sempre e nunca levasse você embora, para longe de mim...Fiquei doente, passei mal, e você orava com fé, juntamente com o papai e manos, fazendo tudo para salvar-me. Levaram-me à São Paulo de avião, para novas consultas médicas e tratamento (tudo era tão caro, e a vida difícil, mas você fez promessa à Nossa Senhora Aparecida e ela me salvou..
Fostes, anos depois, até a cidade de Aparecida do Norte, me levando junto, cumprir a sua promessa: acender uma vela do tamanho que eu estivesse...
Por mais de 30 anos eu vim até aqui no Cemitério de Getulina,  sem nunca ter morrido ninguém da minha família...
Acompanhava à quase todos os enterros: de recém nascidos, jovens, mocos e moças, idosos, todos parentes de amigos  que nos deixaram, alguns na flor da idade... E como você me havia ensinado a rezar, mamãe, eu rezava por eles... e rezava, também, para que Deus não levasse você de mim...eu continuava tendo um medo doido de perde-la...
E nós seis – papai, você, eu, Salomão Leila e Suraya – éramos tão felizes !
Uma noite, chovia...e, perdemos o nosso papai, apesar de eu ter pedido tanto para que ele, também, vivesse mais e mais...
Como você sofreu mamãe ! Nunca demonstrastes desespero, tinha sempre muita paciência, e um enorme carinho para com todos.
Continuastes a tocar a loja e a cuidar de nós e do nosso lar...
Preocupava-se com todos, inclusive com os outros...quantos namoros e casamentos arranjastes !
Quantos conselhos, recomendações fizestes, reconciliando inúmeros casais, ensinando a arte sublime de saber aceitar, suportar os defeitos alheios, ressaltando as virtudes do próximo e perdoar sempre ! Quantos lares ajudastes a edificar e montar !
Na sua loja, os fregueses compravam sempre com ou sem dinheiro...muitas vezes, sem entrada e mais...nada ! Era nossa mãe, e a verdadeira “mãe dos pobres”, também.
Fostes a mais ativa e antiga comerciante de Getulina. Trabalhastes sempre com afinco, por mais de 70 anos, ora medindo panos, tecidos, ora vendendo móveis, e nem conseguistes a sua tão almejada aposentadoria ! (que injusta, e tola burocracia, heim ?).
Cozinhavas bem, como ninguém ! E  pensar, que quando casastes, não sabias fritar um ovo, sequer !
Os seus saborosos, invejados e nunca imitados pratos culinários, ficaram conhecidos e famosos por todos, não só em nossa terra, como em todo o mundo. A nossa mesa sempre farta, no mínimo eram dez pratos variados, diariamente, tanto no almoço, como no jantar (que gostosura ! ). E, não eras a grande Mestra somente na cozinha árabe, não ! A sua macarronada, o seu arroz-feijão, seus bifes a milanesa ou acebolados, a batatinha, o nhoque, os assados, e outros variados pratos,nunca ninguém conseguirá fazer igual e tão gostoso !
E quando morria alguém na cidade, tanto pobre, como rico, você sempre se preocupou em fazer a comida, e depois enviá-la à família enlutada (pois, dizia que eles, naquele momento estavam em desespero, e não poderiam fazer a alimentação para si, e para os eventuais parentes que vieram acompanhar o féretro...). E lá ia eu, levar paneladas de comidas, que a Dona Meire fizera, para os familiares e amigos do então falecido(a).
A comunidade de Getulina reconheceu seu trabalho e seus feitos beneméritos ! Outorgou-lhe a Câmara Municipal o Título de “Cidadã Getulinense”, e o Rotary Club, homenageou-a, na década de 1980, como a “Mãe do Ano”.
E você, sempre tão bonita, com seus lindos vestidos, cabelos sempre bem penteados, sapatos de saltos bem altos, baton, rouge, e unhas compridas e maravilhosamente esmaltadas (Que elegância, heim? ). Nunca fostes orgulhosa, na sua simplicidade e grandiosidade, eras carinhosa, amiga, caridosa ao extremo !
O tempo passava, e eu adulto, continuava pedindo ao nosso Bom Deus, que não deixasse você morrer, ir embora...que nunca levasse você para longe e mim... eu precisava primeiro me casar, e ser bem mais adulto, para então poder suportar a separação... E quantas vezes você quase nos deixou... Quantas cirurgias, em tão pouco tempo... E cada vez que isso acontecia, eu rezava, fervorosamente, ao nosso Pai do Céu, rogando para que você vivesse mais um final de Ano, mais um Natal, mais uma Páscoa, mais um aniversário, mais um Dia das Mães conosco... E você então melhorava, e nós agradecíamos felizes... nos reunindo à sua volta, na sua bela casa, que por você e o papai, foi edificada com tanto amor e sacrifícios...
E a Dona Meire, continuava a encantar à todos, com a sua carismática simpatia !
Depois... você caiu novamente, mamãe, fraturou o fêmur... nova cirurgia, novas preces para que você sarasse e voltasse a andar. E Ele me atendeu, você melhorou... E nós voltamos a sorrir...
Você, tempos depois, teve nova queda, seus ossos estavam fracos... nova cirurgia... E eu já adulto, casado, com cinco filhos e netos, ainda me sentia criança, e sem forças para suportar a sua eventual ausência... E outra vez pedi à Deus, e fui atendido, você voltou viva para casa...
Como você sofria, mamãe !
E eu relembrava , como você sempre procurou servir, nada querendo em troca.
Que pessoa maravilhosa foi você, mamãe ! ( Sei  que todas as mães são ou foram boas, mas você foi especial, que me desculpem os outros e as outras, a senhora, querida, foi realmente, fora de série, encantadora ! ). O quanto você fez por  mim... por nós... e, como tão pouco fizemos por você !
Mas, ontem à tarde, você resolveu nos deixar... Sei que estava sofrendo muito, querida,  era preciso descansar... mas, nós, egoístas, queríamos que vivesse mais e mais...
Não sei, seu eu não estava  mais rezando direito...mas, só sei que a gente é eternamente  uma criança crescida, e que você, mamãe, nunca envelheceu... Chegara a hora da sua partida...
Como é difícil querer aceitar tudo isso ! É bastante triste !
Que  enorme vazio você deixou, meu amor !
Nem todo o montão de lembranças e saudades que estamos sentindo de você, irão preencher  esse vazio... nunca !
Não há dúvida, que quando você, e ou, sua alma  chegou no céu, por certo,  São Pedro, foi logo lhe dizendo: - “Pode entrar, Dona Meire, a senhora, também, aqui não precisa nem pedir licença...”
Eu sei, que dentro de alguns dias, no firmamento irá brilhar uma nova estrela, linda e maravilhosa, e se olharmos direito, ela se distinguirá das outras, por estar  usando rouge, baton, esmalte, sapatos de saltos altos e, brilhará eternamente,e, pelo jeito, ninguém duvidará que será você, mamãe, que virou, para nos consolar, uma estrela encantada !
Vá...e descanse  em paz, minha  querida !
Adeus !...

                                                        Milton  Hauy 

domingo, 15 de abril de 2012

BASTIÃO CARA FEIA

Umas das coisas que mais marcou a  minha infante/juventude, foi conhecer as estórias e a história de nossa Getulina.

                            No início de nossa terra, tudo era mata,  e dentro dela moravam os donos dela, que eram os índios das tribos Caingangues, os primeiros habitantes destas paragens .


                            Tempo em que duas grandes Famílias : os Barbosas e os Queiroz, disputavam  a grande gleba.


                             Conheci anos depois, a figura lendária do Coronel Joaquim Barbosa de Morais, que na primitiva época,  dominava a grande disputa, grilando terras,  juntamente com seus capangas, e dentre eles, falo hoje, de um dos mais famosos comparsas do Coroné, o  temido “Bastião Cara Feia”, pessoa que também conheci, já provecto,  amparando-se  em uma  bengala, em cujo bojo escondia  um  grande punhal.

                           

                                 Era um homem de estatura mediana, moreno, magro, quase esquelético, andava ensebado, pela falta de higiene, tanto no corpo, como nas roupas e nos cabelos, que como  suas unhas,  eram compridos.
                            Contava-me  o “Cara Feia “ – após pagar-lhe alguns tragos (motivo pelo qual nasceu a nossa amizade) alí na Cantina 160, que ficava na Rua  Carlos de Campos, esquina com a Ataliba Leonel – algumas histórias do seu tempo de lutas e labutas em favor do Coroné.

                            Dizia-me, que  vira matar e matara muita gente, e ainda, antes de morrer, teria que matar mais uma pessoa (por mais que eu insistisse, não consegui descobrir quem seria essa pessoa), porisso, contou-me, mostrando o oculto punhal que trazia em sua bengala.

                            Matara, dizia, muitos homens metidos a valentões, vários moços, mulheres, moças e velhos, inclusive muitos índios, que surgiam em seu caminho, tomando-lhes as casas, as roupas, e as terras.

                            Muitas vezes, ateou fogo aos casebres e choças, destruindo tudo...

                            Narrava  tudo com uma naturalidade incrível, como se aquilo que contava, fossem  coisas normais... mas, confessou-me, certo dia, digo, numa certa tarde, que nunca se esquecera, e até se arrependera de ter feito, em uma das tomadas de terras, ao saquear uma das casas, depois de dominar, judiar e matar os seus moradores, no exato momento em que os executava, uma criancinha chorava no berço... recordava que, ao aproximar-se aquele anjinho  parou de chorar , e até lhe sorriu, mas, ele nem ligou para aquilo, pegou e jogou a criança para cima e a aparou no  seu enorme punhal, varando-a mortalmente; que, essa era a única empreitada que se arrependera de fazer, pois ainda hoje, à todo momento, parecia ainda escutar o choro daquela criança, que lhe atordoava os ouvidos ...

                            Arrepiava-me ao ouvir aquelas histórias, mas, a curiosidade aguçava mais, e eu insistia em seus pormenores...

                            A pigarra lhe interrompia, de quando em vez, as emocionantes e aterrorizadoras narrações.       

                            Morava em uma velha garagem, que ficava na Rua Ataliba Leonel, esquina com a Albuquerque  Lins, pertencente à mesma caridosa família, que lhe fornecia  gratuita  alimentação.


                            Nos últimos meses de vida, já não aguentava mais sair de casa, ou melhor, daquela velha  esteira que  lhe  servia de cama.

 Chegava a feder,( pois as pessoas caridosas e vizinhas, costumavam higienizá-lo, à cada quinze dias, um mês...) e, ele  estava cada dia mais feio, horroroso, suas unhas sujas e muito compridas, aqueles cabelos  longos e ensebados de sujeira, sua voz cavernosa e mente senil,  metiam medo , não só nos mais jovens, como também nos adultos.

Até que certa tarde, quando estava jogando futebol, uma pelada,  ali na rua próxima à sua morada, soubemos pelo Cridio   Zanco,( pessoa hoje saudosa, e uma das criaturas caridosas que na época  ajudavam o velho Tião Cara Feia) que ele havia morrido, pois chegara a urrar de dor pela madrugada e  vinha sofrendo muito, nos últimos dias...


Assim, findava a vida daquele capanga, que fora um maldoso jagunço,  tão temido, e que nos últimos tempos, parecia um verme a arrastar-se, e depois, ficara isolado na sua esteira, exalando odores repugnantes, amargando intimamente as maldades que fizera nos seus tempos de  matador.


Aqui entre nós, o Tião, ou Bastião  Cara Feia, segundo consta, não conseguiu cumprir com o prometido de matar mais uma pessoa, como falava em fazer.

Talvez essa pessoa fosse ele mesmo,  quem sabe ?!?

 Mas, para isso, nem mais possuía força para fazer, nem praticar seu  eventual suicídio.

Com certeza, está ele,  sofrendo  nos caldeirões  ferventes  de  Satanás (pois, nem  chances deve ter tido de arder no mármore quente do inferno) , pois fora a sua encarnação aqui em nossa terra, nos seus  primórdios tempos, e pode até ter retornado , sabe-se lá como, quando e onde  !?!

Essa nossa terra, tem muitas histórias, e estórias, para  serem ouvidas , contadas e repetidas ... basta ter tempo e muita  paciência, não acha ?



                                     Milton  Hauy

sábado, 17 de março de 2012

A MÃE DE DEUS E NOSSA

Vivia-se  o final da década de 1940, e  Getulina começava a dar os seus primeiros passos rumo ao progresso.

                            Um casal de comerciantes, em nossa população,  lutava para sobreviver e alimentar sua prole, cujo filho caçula  contraíra um mal , e os  médicos da localidade, apesar de suas aptidões,  competências e habilidades, não conseguiam curá-lo.

                            O menino  tinha, mais ou menos, seis anos de idade, era prodígio,  e  como toda a sua família, benquisto por todos, não só no mundo infantil, como adulto.

                            Sofria de dores terríveis , e seus  gemidos eram ouvidos à longa distancia...

                            Como naquele tempo não havia, em Getulina, nenhuma geladeira ( e as que existiam em outras localidades eram importadas, pois não se fabricavam, ainda, geladeiras no Brasil), o irmão mais velho do menino, toda tarde,  comprava e  trazia de Lins, em uma caixa,  em meio a  palha de arroz, bastante gelo, que era para , vagarosamente, fazer compressas sobre a barriga do garoto, a fim de minimizar suas dores.

                            A mãe do garoto, era ardorosa devota de Nossa Senhora  Aparecida, e colocara no criado mudo , ao lado da cama do menino, uma pequena imagem da Santa.

                            O menino , de vez em quando , orava com sua mãe, rogando à Nossa Senhora, para que ajudasse  a curar  sua doença, e costumava passar a imagem da Santa por sobre  a  sua barriga, onde internamente o mal lhe consumia, e este ato amenizava as suas dores...

                            Os  seus familiares e amigos estavam desesperados, pois cada dia que passava , as dores aumentavam, o menino emagrecia, e os quatro médicos que o assistiam, ficavam desanimados, pois,  os medicamentos mais modernos da época, estavam sendo empregados ... e nada de melhora !

                            Assim é que a mãe do garoto, fez uma promessa à Nossa Senhora Aparecida, implorando que a mesma intercedesse junto à Deus , a fim de cura-lo, e  se  isso acontecesse ,ela iria até a cidade da Aparecida do Norte, juntamente com ele, e lá acenderia uma vela do tamanho que o menino estivesse , além de se abster de uma porção de coisas, e enquanto vivesse faria caridade, auxiliando os menos favorecidos pela sorte.

                            Naquele tempo, não  era tão fácil, como agora, ir até  a Basílica  da Padroeira do Brasil, pois só para ir até São Paulo,  levava mais de um dia de viagem ...

                            Até que um dia, os médicos ,após ouvirem a opinião de muitos de seus colegas, tanto de Guaimbê, como de Lins, à quem o doente foi submetido à consultas, exames e observações,   desistiram, chamaram os pais  do menor e manifestaram  não haver mais meios na medicina em salvá-lo...

                            Mais desesperados ainda,  os pais do menino, resolveram que o levariam  para tratamento  na Capital, ocasião que os médicos disseram, que podiam  levá-lo, apenas para desencargo de consciência, pois cura não mais haveria...


                            O casal largou todos os seus negócios em nossa cidade, e tomando um avião , Bimotor da Real , no aeroporto de Lins, rumaram até São Paulo, levando o garoto, que foi,  contorcendo em dores...

                            Com muita fé na Santa, e na esperança de encontrar novos medicamentos na Capital Paulista, lá chegaram os três, indo  para o Hospital da Beneficência  Portuguesa, onde tiveram boa acolhida.

                            O novo médico era sobrinho do pai do menino, que após examiná-lo ,  receitou-lhe alguns medicamentos, que deveriam ser tomados  em  vários horários, com rigorosa pontualidade, mas, não haveria necessidade de ficar internado, mas, sim, permanecer por alguns dias ainda na Capital.

                            O que foi feito, indo, o casal de Getulina e seu filho, para a casa de parentes, que residiam em São Paulo.

                            A mãe do garoto não largava o terço, nem o menino a imagem da Santa.

                            Naquele terço, vários rosários foram rezados, invocando o auxílio da  sua grande Protetora.

                            “Daí- nos a benção... ó Mãe querida...
                            Nossa Senhora, Aparecida....

        
                           
                            Passados dois dias, já não mais se via o menino contorcer-se em dores, e , em  menos de uma semana,  foi ficando cada vez melhor, até notar-se , que a sua face , antes pálida , estava  com bonito e notório  rubor , e  o mesmo passara até engordar... 

                            Voltando  ao Hospital, o médico admirou-se com o breve restabelecimento do garoto , assim como todos os que o viram chegar... estava curado !

                            Milagre !

                            “ Nossa Senhora, me dê a mão...

                            Cuida do meu coração...

                            Da minha vida... do meu destino...

                            Do meu caminho...

                            Cuida  de  mim...”
        
                           
                            Já podiam retornar ao interior, foi o que fizeram, após, agradecerem à todos lá do Hospital, bem como, alguns amigos e parentes,  depois de  batizarem o menino, que teve como padrinhos, os seus tios, que o acolheram  em São Paulo.

                            Retornando à Getulina, a população  local, também, ficou espantada com a rápida melhora, de quem até  iria morrer precocemente...


                            Os médicos daqui,  não erraram no tratamento, nem os da Capital acertaram, eles nem acreditavam no que viam... todos enfim,  comentavam : - Verdadeiro  Milagre !

                            “Viva  a Mãe de Deus e Nossa...

                            Sem pecado concebida...

                            Viva a Virgem  Imaculada ...


                            A Senhora   Aparecida....”


                            Realmente ,as preces foram atendidas , e Nossa Senhora Aparecida intercedeu , diretamente, na cura do menino, que iria morrer aos seis anos de idade... Anos depois, a promessa foi cumprida, e lá, na Aparecida do Norte,  diante da Virgem Milagrosa , emocionados, choraram felizes,  tanto a mãe, como o filho, agradecidos...acenderam  uma vela no velho  Santuário , do tamanho do menino, que já era moço, e colocaram uma foto dele , na Sala dos Milagres(cheia de provas  de incontestes milagres da Santa) após, antes, terem andado pelas ruas próximas à Igreja, cheias de bares, bazares, lojas, e barracas, vendendo doces, salgados, bebidas, além de imagens, medalhas, correntes, fitas, quadros e gravuras da nossa Padroeira.

                            Sem ninguém  saber,  nem poder explicar, a pequenina imagem , que o menino tinha, em Getulina,   ao lado de sua cama, sobre o criado mudo, após sua cura,  misteriosamente, desapareceu....

                            Seus pais, e alguns familiares, já morreram, - ou melhor, foram primeiro para junto de Deus, estando  ao lado da Virgem, também velando por nós... -   mas, são muitas pessoas, além dele, muitos parentes e amigos,  que conhecem e vivenciaram   essa história triste,  árdua, feliz, emocionante  e  milagrosa !

                            É mais uma prova, dentre milhares de milagres que a Virgem, Imaculada Conceição Aparecida fez, e continua fazendo a cada dia que passa... cuja Imagem primeira( ainda existente na Basílica de Aparecida) foi resgatada das águas, em uma rede, em duas etapas, corpo e cabeça, por pescadores  no  Rio Paraíba, em uma tarde, que até então não haviam pescado nada, e depois, suas canoas ficaram abarrotadas de peixes...

                            E essa, é nossa  agradecida e singela homenagem à Mãe de Deus e  nossa...



                            Aqui entre nós, aquele menino doente , ficou completamente curado, cresceu, estudou, teve uma juventude mais sadia ainda,  formou-se, em uma porção de cursos, casou-se, tornou-se pai, e  já é avô, de dez  netos, já tem até uma bisneta; ele que  iria morrer com  seis , hoje já passou dos sessenta anos, continua fervoroso devoto de Nossa Senhora Aparecida, que nunca o desamparou, inclusive,  em outras horas difíceis que surgiram ao longo do tempo...e sempre, que ele a invoca, é atendido,  tanto  em seu auxílio, como  em socorro  de outras pessoas...

                            Você ,talvez, até o conheça... ele costuma escrever crônicas, é poeta,agora tem blogger na internet, e continua  aqui entre nós....


                                                                  Milton  Hauy