domingo, 10 de junho de 2012

DE REPENTE... MAIS UM REPENTE

AH! O mês de junho, das manhãs ardentes, com suas noites tão românticas, tão dolentes, cheias de estórias e histórias, com crendices e disse me disses, fogos de artifícios, músicas, quermesses , os terços  em louvor aos Santos Juninos, quadrilhas,flerts, com olhares trigueiros, das moças, rapazes, homens , mulheres, crianças, na cidade, nas capelas, e nos terreiros das fazendas, que tem e tinham café, que o povo chega de carro, cavalo e à pé...
Isso me faz lembrar, dentre outros, o seu Quinzinho, o sempre pranteado Joaquim Torres Mendes, um homem bom, que fora honesto funcionário municipal, depois aposentado,sempre disposto e sorridente, que marcava as quadrilhas prá gente, em todos os lugares, tanto na cidade, como na roça, sob os olhares apaixonados dos integrantes , que sonhadores  participavam, com emoção e descompassado coração, no compassado ritmo dançante, que nunca sai danossa mente, fazendo o passado virar o presente, e aparecer em cenas deslumbrantes, igualzinhas como acontecera antes...pondo a gente a sonhar confuso, sem nunca despertar...e reaprender a amar...o que ficou no desuso.
E as primas, as amigas, os amigos, os namorados e os variados pares, vão virando rimas, em prosas, sonetos e poemas, preenchendo velhos temas, que vocês tem que aturar, desse poetinha , inveterado sonhador, metido a repentista, que muito amou e viveu querendo ensinar, como é fácil e difícil a gente gostar de quem não gostava da gente, e agora, às vezes até chora, ao ler, nos ouvindo a falar, precisamente aquilo que gostaria de ter feito, ou de ter tido, a oportunidade de realizar...
Lá na festa da roça, mesmo aos que vieram de carroça, corria solto o quentão, passando de mão em mão...e assim como a canjica, a pipoca , o amendoim, os doces e a mandioca...
Ouço, então, cochicho,riso, zunzum,e depois alguém pedindo mais um , prá animação pessoal, ao lado o povão vibra e  grita, é festa no arraial !
Enquanto a sanfona chora, sob a luz do luar, há estrondos  do foguetório, pela noite afora, e os pares continuam a dançar...
As muié rezadeira oram, e cantam o terço ou rosário, na capela diante do santuário...
E a Periquita, que é prendada e bunita , com seu vestido de chita, pede aos Santos, pede aos treis, que a ajude a desencalhar de veis, e logo lhe traga o seu bem amado, “pois, todas as festas, são tristes, sem  ter um amor ao nosso lado”...
Também há os pedidos dos solteiros, velhos,  e feios, que também são gente, e têm coração...que são bonitos por dentro, que lhes ajude Deus, Jesus, Nossa Senhora, atendido os pedidos, intercedidos  pelos Santos Juninos, que façam surgir hoje, agora, o seu pé de meia, ou cara metade, que para amar, não se tem  idade...
Pelo que se vê e se via, ninguém estava querendo ficar prá titio ou titia !...
E o seu  Quinzinho, todo imponente, ia dirigindo e divertindo a gente, em brilhante fulgor, nos belos sons da quadrilha, da sanfona que o seu Néco dedilha, com maestria e furor !...
No alto do mastro tremulam as bandeiras dos Santos: Antônio, Pedro e João, o povo todo festeja... no escuro, um par de jovens se beija, no arrasta pé aqui do chão...
E de longe, se vê e ouve Seu Quinzinho, marcando a quadrilha e comendo romã, gritar sonoramente: “ Balancez ! Tour !  Em Avant ! “...
E a grande fogueira , mesmo ficando pequena (emocionante  cena ! ) ajuda a iluminar a capela, o terreiro, e a alegria  daquele povo festeiro, contagia à todos, animadamente, que vendo terminar a festa presente, vai pensano, triste  e  contente, na festa do próximo  ano !
Aqui  entre  nós,  prá terminá, diga sem medo :
Viva  Santo  Antônio,
                                   São    João  
                                                                       e,  São  Pedro  !


                                                                       Milton  Hauy

domingo, 27 de maio de 2012

JUNHO OUTRA VEZ...


Estamos chegando, novamente, no mês  de junho, já entremeando o novo ano, que sem querer vai ficando, também, velho.
É o mês das manhãs ardentes, como as fogueiras e festas que, durante as festivas e calientes noites, comemoram as datas marcantes  dos Santos , cujas bandeiras , bem enfeitadas, erguemos nos mastros, sob a rajada de aplausos e fogos de artifícios...
O primeiro é Santo Antônio, que dizem ser o santo casamenteiro, e em data de véspera, cuidam as pessoas que necessitam de sua ajuda, de procederem às variadas “simpatias”, ora colocando mel em um prato, e nele o nome da pessoa amada, para que o   sereno e a luz da lua, possam favorecer na realização do desejo almejado; outras, furam uma maçã e depois de colocarem dentro dela, mel, açúcar  e o nome da pessoa desejada, também procuram coloca-la sob a luz da lua, para no dia seguinte verem se a “simpatia” deu certo....
O segundo santo é São João, que aparece na bandeira como um menino loiro, do cabelo encaracolado, com um carneireirinho no colo e, dizem ajudar muita gente em diversos pedidos...
O terceiro santo junino é São Pedro, o santo que possui as chaves do céu, e as tem nas mãos... depende do Pedroca a sua entrada ou não no Paraíso, viu ?
E o povo costuma  festejar durante todo o mês de junho, os três santos, o primeiro no dia 12 e 13, o segundo no dia 24 e o terceiro no dia 29 ou 30, promovendo  as fantásticas e concorridas Festas Juninas : com  rezas, terços, quermesses, barracas, bandeirinhas, prendas, rifas, sorteios, leilões, danças, músicas, quadrilhas, bailes, fogueiras, muitos fogos de artifícios, ”simpatias”, etc.
E os busca-pés, que atormentavam  as moças, fazendo com que elas saíssem correndo  se esconder ?
Também as rodinhas de fogo, que acesas  giravam, giravam, proporcionando um espetáculo maravilhoso, acho que não mais existem ... assim como os balões, que enfeitavam o céu, assanhando a molecada, nas lindas noites juninas, nos ofertando uma visão romântica e colorida, mas, que causavam incêndios, razão de serem proibidos e extintos...
“Pula  fogueira , Yayá... Pula fogueira, Yoyô...
Cuidado para não se queimar...
Olha que a fogueira já queimou
O meu amor...”

Recordamos com imensa saudade, as animadas , concorridas e tradicionais quermesses no largo da capelinha de São João Batista, realizadas durante todo o mês de junho na Vila São João em Getulina.
Aquelas noites frias, além dos enfeites tradicionais aqui em baixo, era enfeitado, também, pela lua , lá em cima, que vagava pelo vasto céu, bordado de estrelas... toda cheia, e nos enchendo de maravilhas, sonhos e ilusões...
Tudo parecia ser mais romântico...
“ As noites de junho, tão lindas...A festa na roça...e o céu enfeitado...Pois, todas as festas são tristes,
Sem   um  amor ao nosso lado...”

Passo a rever os sorrisos das moças, sob os olhares curiosos e apaixonados dos rapazes, circulando , por entre a Praça da Capela, o coreto, e as barracas, todas muito bem enfeitadas , onde haviam pessoas de todas as idades, participando da festa , ouvindo as músicas juninas, ora da Banda Municipal, ora dos alto falantes, entremeadas de ofertas :...”de alguém para alguém, com muito amor...simpatia...ou, carinho...” – os mais íntimos , ou menos, os mais tímidos, através de “Correios Elegantes”, que eram  bilhetinhos de papéis coloridos , enviados por meio da garotada, com as declarações e mensagens de afeição, de um para outro... – daí, muitas vezes, nasceram paixões desenfreadas, que acabavam em encontros, namoros... e até, casamentos...; na maioria, foram apenas, casos passageiros, enveredando por outros caminhos, restando apenas imensas recordações...
“ Capelinha de melão... é de São João...
É de cravo, é de rosa, é de manjericão...”

De entremeio, interrompia-se as músicas e mensagens, para as realizações dos memoráveis leilões, e das cantadas dos bingos, sorteando brindes aos inúmeros participantes, que colaboravam com a reforma e melhoramentos da Capela.

“ Eu garanto que São Pedro, Santo Antônio e São João
São da mesma opinião...(bis)
E, quando um balão for subindo, pro céu estrelado...
Tu podes me dar um beijinho...
Que eu juro que não é pecado...”

Além da grande fogueira, tinha o escorregadio , e até engraçado, pau de sebo, onde a meninada tentava alcançar, no topo, o grande prêmio, mas, a maioria, não conseguia, escorregava e caía... – assim como nós, em realidade, na vida, e, em nossos inatingíveis sonhos...

“Coqueiro, eu te compreendo o sonho inatingível
De quereres subir ao céu...mas, prende-te a raiz...
Esse teu desejo  de querer o impossível...
É igual a este meu, de querer ser  feliz...”

Uma das coisas, que também, foi marcante nas festas juninas da Vila São João, dentre muitas outras, era a Barraca do Quentão, sempre gostoso, feito e servido  pelos eficientes e simpáticos  Cotarellis : Silvio, Orlando e Frederico, sendo que apenas este continua vivo, e talvez, ainda recordando, como nós, dos bons tempos , que já se foram, mas, continuam reluzentes em nossas mentes, aguçando ainda mais no meio de cada ano, quando as rezas, músicas, bombinhas e rojões começam a anunciar a festança novamente, embora em outros lugares, avivando as eternas lembranças...de um tempo distante, mas, como se fosse ontem, ou no  ano que passou...

Aqui entre nós, hoje, vamos encontrar o passado, no tempo presente, buscando no sincero e espontâneo sorriso dos jovens, que vivem  as nossas mesmas emoções, renascendo pois, em outros corações , de maneira diferente, mais moderna, em noites de muita música e luz, mas, descoloridas da ingenuidade , dos segredos, e tabus de antes, cujas perspectivas e expectativas ilusórias, eram anseios e sonhos melhores e, desculpe-me a sinceridade, bem mais bonitos, apesar de tudo...

Chegamos nós, chega você, e chegarão no futuro as pessoas de hoje, com uma bagagem imensa de enormes e ocultas lembranças, que fazem e farão transbordar a saudade de todos, e de tudo que vivemos, rogando à Santo Antônio, São João e São Pedro, que não deixem apagar a grandiosa fogueira, de coisas inesquecíveis, que ardem em nossa mente e em nossos corações...


                                                                                              Milton    Hauy

domingo, 6 de maio de 2012

UMA INESQUECÍVEL MULHER


Era pequeno e você me amava, e eu adorava você !

Tinha um medo danado de perdê-la...
Me  ensinastes  a dar os primeiros passos, a falar as primeiras palavras, respeitar a Deus e ao próximo, orar agradecendo o pão de cada dia...E então, pedia ao Criador para que a protegesse sempre e nunca levasse você embora, para longe de mim...Fiquei doente, passei mal, e você orava com fé, juntamente com o papai e manos, fazendo tudo para salvar-me. Levaram-me à São Paulo de avião, para novas consultas médicas e tratamento (tudo era tão caro, e a vida difícil, mas você fez promessa à Nossa Senhora Aparecida e ela me salvou..
Fostes, anos depois, até a cidade de Aparecida do Norte, me levando junto, cumprir a sua promessa: acender uma vela do tamanho que eu estivesse...
Por mais de 30 anos eu vim até aqui no Cemitério de Getulina,  sem nunca ter morrido ninguém da minha família...
Acompanhava à quase todos os enterros: de recém nascidos, jovens, mocos e moças, idosos, todos parentes de amigos  que nos deixaram, alguns na flor da idade... E como você me havia ensinado a rezar, mamãe, eu rezava por eles... e rezava, também, para que Deus não levasse você de mim...eu continuava tendo um medo doido de perde-la...
E nós seis – papai, você, eu, Salomão Leila e Suraya – éramos tão felizes !
Uma noite, chovia...e, perdemos o nosso papai, apesar de eu ter pedido tanto para que ele, também, vivesse mais e mais...
Como você sofreu mamãe ! Nunca demonstrastes desespero, tinha sempre muita paciência, e um enorme carinho para com todos.
Continuastes a tocar a loja e a cuidar de nós e do nosso lar...
Preocupava-se com todos, inclusive com os outros...quantos namoros e casamentos arranjastes !
Quantos conselhos, recomendações fizestes, reconciliando inúmeros casais, ensinando a arte sublime de saber aceitar, suportar os defeitos alheios, ressaltando as virtudes do próximo e perdoar sempre ! Quantos lares ajudastes a edificar e montar !
Na sua loja, os fregueses compravam sempre com ou sem dinheiro...muitas vezes, sem entrada e mais...nada ! Era nossa mãe, e a verdadeira “mãe dos pobres”, também.
Fostes a mais ativa e antiga comerciante de Getulina. Trabalhastes sempre com afinco, por mais de 70 anos, ora medindo panos, tecidos, ora vendendo móveis, e nem conseguistes a sua tão almejada aposentadoria ! (que injusta, e tola burocracia, heim ?).
Cozinhavas bem, como ninguém ! E  pensar, que quando casastes, não sabias fritar um ovo, sequer !
Os seus saborosos, invejados e nunca imitados pratos culinários, ficaram conhecidos e famosos por todos, não só em nossa terra, como em todo o mundo. A nossa mesa sempre farta, no mínimo eram dez pratos variados, diariamente, tanto no almoço, como no jantar (que gostosura ! ). E, não eras a grande Mestra somente na cozinha árabe, não ! A sua macarronada, o seu arroz-feijão, seus bifes a milanesa ou acebolados, a batatinha, o nhoque, os assados, e outros variados pratos,nunca ninguém conseguirá fazer igual e tão gostoso !
E quando morria alguém na cidade, tanto pobre, como rico, você sempre se preocupou em fazer a comida, e depois enviá-la à família enlutada (pois, dizia que eles, naquele momento estavam em desespero, e não poderiam fazer a alimentação para si, e para os eventuais parentes que vieram acompanhar o féretro...). E lá ia eu, levar paneladas de comidas, que a Dona Meire fizera, para os familiares e amigos do então falecido(a).
A comunidade de Getulina reconheceu seu trabalho e seus feitos beneméritos ! Outorgou-lhe a Câmara Municipal o Título de “Cidadã Getulinense”, e o Rotary Club, homenageou-a, na década de 1980, como a “Mãe do Ano”.
E você, sempre tão bonita, com seus lindos vestidos, cabelos sempre bem penteados, sapatos de saltos bem altos, baton, rouge, e unhas compridas e maravilhosamente esmaltadas (Que elegância, heim? ). Nunca fostes orgulhosa, na sua simplicidade e grandiosidade, eras carinhosa, amiga, caridosa ao extremo !
O tempo passava, e eu adulto, continuava pedindo ao nosso Bom Deus, que não deixasse você morrer, ir embora...que nunca levasse você para longe e mim... eu precisava primeiro me casar, e ser bem mais adulto, para então poder suportar a separação... E quantas vezes você quase nos deixou... Quantas cirurgias, em tão pouco tempo... E cada vez que isso acontecia, eu rezava, fervorosamente, ao nosso Pai do Céu, rogando para que você vivesse mais um final de Ano, mais um Natal, mais uma Páscoa, mais um aniversário, mais um Dia das Mães conosco... E você então melhorava, e nós agradecíamos felizes... nos reunindo à sua volta, na sua bela casa, que por você e o papai, foi edificada com tanto amor e sacrifícios...
E a Dona Meire, continuava a encantar à todos, com a sua carismática simpatia !
Depois... você caiu novamente, mamãe, fraturou o fêmur... nova cirurgia, novas preces para que você sarasse e voltasse a andar. E Ele me atendeu, você melhorou... E nós voltamos a sorrir...
Você, tempos depois, teve nova queda, seus ossos estavam fracos... nova cirurgia... E eu já adulto, casado, com cinco filhos e netos, ainda me sentia criança, e sem forças para suportar a sua eventual ausência... E outra vez pedi à Deus, e fui atendido, você voltou viva para casa...
Como você sofria, mamãe !
E eu relembrava , como você sempre procurou servir, nada querendo em troca.
Que pessoa maravilhosa foi você, mamãe ! ( Sei  que todas as mães são ou foram boas, mas você foi especial, que me desculpem os outros e as outras, a senhora, querida, foi realmente, fora de série, encantadora ! ). O quanto você fez por  mim... por nós... e, como tão pouco fizemos por você !
Mas, ontem à tarde, você resolveu nos deixar... Sei que estava sofrendo muito, querida,  era preciso descansar... mas, nós, egoístas, queríamos que vivesse mais e mais...
Não sei, seu eu não estava  mais rezando direito...mas, só sei que a gente é eternamente  uma criança crescida, e que você, mamãe, nunca envelheceu... Chegara a hora da sua partida...
Como é difícil querer aceitar tudo isso ! É bastante triste !
Que  enorme vazio você deixou, meu amor !
Nem todo o montão de lembranças e saudades que estamos sentindo de você, irão preencher  esse vazio... nunca !
Não há dúvida, que quando você, e ou, sua alma  chegou no céu, por certo,  São Pedro, foi logo lhe dizendo: - “Pode entrar, Dona Meire, a senhora, também, aqui não precisa nem pedir licença...”
Eu sei, que dentro de alguns dias, no firmamento irá brilhar uma nova estrela, linda e maravilhosa, e se olharmos direito, ela se distinguirá das outras, por estar  usando rouge, baton, esmalte, sapatos de saltos altos e, brilhará eternamente,e, pelo jeito, ninguém duvidará que será você, mamãe, que virou, para nos consolar, uma estrela encantada !
Vá...e descanse  em paz, minha  querida !
Adeus !...

                                                        Milton  Hauy 

domingo, 15 de abril de 2012

BASTIÃO CARA FEIA

Umas das coisas que mais marcou a  minha infante/juventude, foi conhecer as estórias e a história de nossa Getulina.

                            No início de nossa terra, tudo era mata,  e dentro dela moravam os donos dela, que eram os índios das tribos Caingangues, os primeiros habitantes destas paragens .


                            Tempo em que duas grandes Famílias : os Barbosas e os Queiroz, disputavam  a grande gleba.


                             Conheci anos depois, a figura lendária do Coronel Joaquim Barbosa de Morais, que na primitiva época,  dominava a grande disputa, grilando terras,  juntamente com seus capangas, e dentre eles, falo hoje, de um dos mais famosos comparsas do Coroné, o  temido “Bastião Cara Feia”, pessoa que também conheci, já provecto,  amparando-se  em uma  bengala, em cujo bojo escondia  um  grande punhal.

                           

                                 Era um homem de estatura mediana, moreno, magro, quase esquelético, andava ensebado, pela falta de higiene, tanto no corpo, como nas roupas e nos cabelos, que como  suas unhas,  eram compridos.
                            Contava-me  o “Cara Feia “ – após pagar-lhe alguns tragos (motivo pelo qual nasceu a nossa amizade) alí na Cantina 160, que ficava na Rua  Carlos de Campos, esquina com a Ataliba Leonel – algumas histórias do seu tempo de lutas e labutas em favor do Coroné.

                            Dizia-me, que  vira matar e matara muita gente, e ainda, antes de morrer, teria que matar mais uma pessoa (por mais que eu insistisse, não consegui descobrir quem seria essa pessoa), porisso, contou-me, mostrando o oculto punhal que trazia em sua bengala.

                            Matara, dizia, muitos homens metidos a valentões, vários moços, mulheres, moças e velhos, inclusive muitos índios, que surgiam em seu caminho, tomando-lhes as casas, as roupas, e as terras.

                            Muitas vezes, ateou fogo aos casebres e choças, destruindo tudo...

                            Narrava  tudo com uma naturalidade incrível, como se aquilo que contava, fossem  coisas normais... mas, confessou-me, certo dia, digo, numa certa tarde, que nunca se esquecera, e até se arrependera de ter feito, em uma das tomadas de terras, ao saquear uma das casas, depois de dominar, judiar e matar os seus moradores, no exato momento em que os executava, uma criancinha chorava no berço... recordava que, ao aproximar-se aquele anjinho  parou de chorar , e até lhe sorriu, mas, ele nem ligou para aquilo, pegou e jogou a criança para cima e a aparou no  seu enorme punhal, varando-a mortalmente; que, essa era a única empreitada que se arrependera de fazer, pois ainda hoje, à todo momento, parecia ainda escutar o choro daquela criança, que lhe atordoava os ouvidos ...

                            Arrepiava-me ao ouvir aquelas histórias, mas, a curiosidade aguçava mais, e eu insistia em seus pormenores...

                            A pigarra lhe interrompia, de quando em vez, as emocionantes e aterrorizadoras narrações.       

                            Morava em uma velha garagem, que ficava na Rua Ataliba Leonel, esquina com a Albuquerque  Lins, pertencente à mesma caridosa família, que lhe fornecia  gratuita  alimentação.


                            Nos últimos meses de vida, já não aguentava mais sair de casa, ou melhor, daquela velha  esteira que  lhe  servia de cama.

 Chegava a feder,( pois as pessoas caridosas e vizinhas, costumavam higienizá-lo, à cada quinze dias, um mês...) e, ele  estava cada dia mais feio, horroroso, suas unhas sujas e muito compridas, aqueles cabelos  longos e ensebados de sujeira, sua voz cavernosa e mente senil,  metiam medo , não só nos mais jovens, como também nos adultos.

Até que certa tarde, quando estava jogando futebol, uma pelada,  ali na rua próxima à sua morada, soubemos pelo Cridio   Zanco,( pessoa hoje saudosa, e uma das criaturas caridosas que na época  ajudavam o velho Tião Cara Feia) que ele havia morrido, pois chegara a urrar de dor pela madrugada e  vinha sofrendo muito, nos últimos dias...


Assim, findava a vida daquele capanga, que fora um maldoso jagunço,  tão temido, e que nos últimos tempos, parecia um verme a arrastar-se, e depois, ficara isolado na sua esteira, exalando odores repugnantes, amargando intimamente as maldades que fizera nos seus tempos de  matador.


Aqui entre nós, o Tião, ou Bastião  Cara Feia, segundo consta, não conseguiu cumprir com o prometido de matar mais uma pessoa, como falava em fazer.

Talvez essa pessoa fosse ele mesmo,  quem sabe ?!?

 Mas, para isso, nem mais possuía força para fazer, nem praticar seu  eventual suicídio.

Com certeza, está ele,  sofrendo  nos caldeirões  ferventes  de  Satanás (pois, nem  chances deve ter tido de arder no mármore quente do inferno) , pois fora a sua encarnação aqui em nossa terra, nos seus  primórdios tempos, e pode até ter retornado , sabe-se lá como, quando e onde  !?!

Essa nossa terra, tem muitas histórias, e estórias, para  serem ouvidas , contadas e repetidas ... basta ter tempo e muita  paciência, não acha ?



                                     Milton  Hauy

sábado, 17 de março de 2012

A MÃE DE DEUS E NOSSA

Vivia-se  o final da década de 1940, e  Getulina começava a dar os seus primeiros passos rumo ao progresso.

                            Um casal de comerciantes, em nossa população,  lutava para sobreviver e alimentar sua prole, cujo filho caçula  contraíra um mal , e os  médicos da localidade, apesar de suas aptidões,  competências e habilidades, não conseguiam curá-lo.

                            O menino  tinha, mais ou menos, seis anos de idade, era prodígio,  e  como toda a sua família, benquisto por todos, não só no mundo infantil, como adulto.

                            Sofria de dores terríveis , e seus  gemidos eram ouvidos à longa distancia...

                            Como naquele tempo não havia, em Getulina, nenhuma geladeira ( e as que existiam em outras localidades eram importadas, pois não se fabricavam, ainda, geladeiras no Brasil), o irmão mais velho do menino, toda tarde,  comprava e  trazia de Lins, em uma caixa,  em meio a  palha de arroz, bastante gelo, que era para , vagarosamente, fazer compressas sobre a barriga do garoto, a fim de minimizar suas dores.

                            A mãe do garoto, era ardorosa devota de Nossa Senhora  Aparecida, e colocara no criado mudo , ao lado da cama do menino, uma pequena imagem da Santa.

                            O menino , de vez em quando , orava com sua mãe, rogando à Nossa Senhora, para que ajudasse  a curar  sua doença, e costumava passar a imagem da Santa por sobre  a  sua barriga, onde internamente o mal lhe consumia, e este ato amenizava as suas dores...

                            Os  seus familiares e amigos estavam desesperados, pois cada dia que passava , as dores aumentavam, o menino emagrecia, e os quatro médicos que o assistiam, ficavam desanimados, pois,  os medicamentos mais modernos da época, estavam sendo empregados ... e nada de melhora !

                            Assim é que a mãe do garoto, fez uma promessa à Nossa Senhora Aparecida, implorando que a mesma intercedesse junto à Deus , a fim de cura-lo, e  se  isso acontecesse ,ela iria até a cidade da Aparecida do Norte, juntamente com ele, e lá acenderia uma vela do tamanho que o menino estivesse , além de se abster de uma porção de coisas, e enquanto vivesse faria caridade, auxiliando os menos favorecidos pela sorte.

                            Naquele tempo, não  era tão fácil, como agora, ir até  a Basílica  da Padroeira do Brasil, pois só para ir até São Paulo,  levava mais de um dia de viagem ...

                            Até que um dia, os médicos ,após ouvirem a opinião de muitos de seus colegas, tanto de Guaimbê, como de Lins, à quem o doente foi submetido à consultas, exames e observações,   desistiram, chamaram os pais  do menor e manifestaram  não haver mais meios na medicina em salvá-lo...

                            Mais desesperados ainda,  os pais do menino, resolveram que o levariam  para tratamento  na Capital, ocasião que os médicos disseram, que podiam  levá-lo, apenas para desencargo de consciência, pois cura não mais haveria...


                            O casal largou todos os seus negócios em nossa cidade, e tomando um avião , Bimotor da Real , no aeroporto de Lins, rumaram até São Paulo, levando o garoto, que foi,  contorcendo em dores...

                            Com muita fé na Santa, e na esperança de encontrar novos medicamentos na Capital Paulista, lá chegaram os três, indo  para o Hospital da Beneficência  Portuguesa, onde tiveram boa acolhida.

                            O novo médico era sobrinho do pai do menino, que após examiná-lo ,  receitou-lhe alguns medicamentos, que deveriam ser tomados  em  vários horários, com rigorosa pontualidade, mas, não haveria necessidade de ficar internado, mas, sim, permanecer por alguns dias ainda na Capital.

                            O que foi feito, indo, o casal de Getulina e seu filho, para a casa de parentes, que residiam em São Paulo.

                            A mãe do garoto não largava o terço, nem o menino a imagem da Santa.

                            Naquele terço, vários rosários foram rezados, invocando o auxílio da  sua grande Protetora.

                            “Daí- nos a benção... ó Mãe querida...
                            Nossa Senhora, Aparecida....

        
                           
                            Passados dois dias, já não mais se via o menino contorcer-se em dores, e , em  menos de uma semana,  foi ficando cada vez melhor, até notar-se , que a sua face , antes pálida , estava  com bonito e notório  rubor , e  o mesmo passara até engordar... 

                            Voltando  ao Hospital, o médico admirou-se com o breve restabelecimento do garoto , assim como todos os que o viram chegar... estava curado !

                            Milagre !

                            “ Nossa Senhora, me dê a mão...

                            Cuida do meu coração...

                            Da minha vida... do meu destino...

                            Do meu caminho...

                            Cuida  de  mim...”
        
                           
                            Já podiam retornar ao interior, foi o que fizeram, após, agradecerem à todos lá do Hospital, bem como, alguns amigos e parentes,  depois de  batizarem o menino, que teve como padrinhos, os seus tios, que o acolheram  em São Paulo.

                            Retornando à Getulina, a população  local, também, ficou espantada com a rápida melhora, de quem até  iria morrer precocemente...


                            Os médicos daqui,  não erraram no tratamento, nem os da Capital acertaram, eles nem acreditavam no que viam... todos enfim,  comentavam : - Verdadeiro  Milagre !

                            “Viva  a Mãe de Deus e Nossa...

                            Sem pecado concebida...

                            Viva a Virgem  Imaculada ...


                            A Senhora   Aparecida....”


                            Realmente ,as preces foram atendidas , e Nossa Senhora Aparecida intercedeu , diretamente, na cura do menino, que iria morrer aos seis anos de idade... Anos depois, a promessa foi cumprida, e lá, na Aparecida do Norte,  diante da Virgem Milagrosa , emocionados, choraram felizes,  tanto a mãe, como o filho, agradecidos...acenderam  uma vela no velho  Santuário , do tamanho do menino, que já era moço, e colocaram uma foto dele , na Sala dos Milagres(cheia de provas  de incontestes milagres da Santa) após, antes, terem andado pelas ruas próximas à Igreja, cheias de bares, bazares, lojas, e barracas, vendendo doces, salgados, bebidas, além de imagens, medalhas, correntes, fitas, quadros e gravuras da nossa Padroeira.

                            Sem ninguém  saber,  nem poder explicar, a pequenina imagem , que o menino tinha, em Getulina,   ao lado de sua cama, sobre o criado mudo, após sua cura,  misteriosamente, desapareceu....

                            Seus pais, e alguns familiares, já morreram, - ou melhor, foram primeiro para junto de Deus, estando  ao lado da Virgem, também velando por nós... -   mas, são muitas pessoas, além dele, muitos parentes e amigos,  que conhecem e vivenciaram   essa história triste,  árdua, feliz, emocionante  e  milagrosa !

                            É mais uma prova, dentre milhares de milagres que a Virgem, Imaculada Conceição Aparecida fez, e continua fazendo a cada dia que passa... cuja Imagem primeira( ainda existente na Basílica de Aparecida) foi resgatada das águas, em uma rede, em duas etapas, corpo e cabeça, por pescadores  no  Rio Paraíba, em uma tarde, que até então não haviam pescado nada, e depois, suas canoas ficaram abarrotadas de peixes...

                            E essa, é nossa  agradecida e singela homenagem à Mãe de Deus e  nossa...



                            Aqui entre nós, aquele menino doente , ficou completamente curado, cresceu, estudou, teve uma juventude mais sadia ainda,  formou-se, em uma porção de cursos, casou-se, tornou-se pai, e  já é avô, de dez  netos, já tem até uma bisneta; ele que  iria morrer com  seis , hoje já passou dos sessenta anos, continua fervoroso devoto de Nossa Senhora Aparecida, que nunca o desamparou, inclusive,  em outras horas difíceis que surgiram ao longo do tempo...e sempre, que ele a invoca, é atendido,  tanto  em seu auxílio, como  em socorro  de outras pessoas...

                            Você ,talvez, até o conheça... ele costuma escrever crônicas, é poeta,agora tem blogger na internet, e continua  aqui entre nós....


                                                                  Milton  Hauy 

segunda-feira, 5 de março de 2012

UMA NOITE DE HORROR

Faz muito tempo, e a  nossa turma  resolveu fazer,  de uma noite linda, romântica , estrelada, uma noite macabra , horrenda, terrível...

                            E falava-se até em premiar a fantasia mais bonita, a melhor, a mais original, ou seja,  a mais horrível, que metesse medo em todos...


                            Marcou-se, para a então próxima sexta-feira, 13, de um mês qualquer ( isso, é para não invocar algum aniversariante  do então mês, criando problemas...).

                            O lugar  escolhido, foi  o   cemitério, por volta da meia noite (vejam só, tanto lugar para se brincar, e a nossa juventude preferia , involuntariamente,  profanar  o campo santo , local que, sempre, mais progrediu, e progride,  em nossa terra).

                            Pularíamos o muro, ou entraríamos pela valeta, e nas proximidades do cruzeiro nos concentraríamos , para o grande e esperado encontro...

                            O regulamento previa que, também,  se poderia levar pequenas lanternas, lampiões, fósforos e  velas.


                            Assim foi feito.

                            Mas, não foi grande o número de concorrentes, que se esperava, pois houve muitas desistências  de última hora, da então programada  participação, alegando as mais esfarrapadas desculpas,  a fim de encobrirem o medaço dos cagões...

                            Apesar disso, teve  até uma inscrição, feita por telefone, de uma jovem de Lins,  Guaimbê, Cafelândia ou Promissão.


                            Os  pré aquecimentos  para o  tétrico desfile, foram feitos nos mais diversos bares de nossa cidade, pela grande maioria, que tratou de ingerir cervejas, chopps,  pingas, vodkas, wiskis, champagnes, conhaques  e vinhos.

                            A noite parecia ter sido desenhada para o  grande evento das muitas  travessuras e poucas gostosuras...

                            No entanto, não era de lua cheia, e sim, quarto minguante, estrelada, escura, nevoenta, apesar de fresca, cuja brisa fazia ventar ora de leve, outras vezes, fortemente, um vento vagabundo que, assobiando,  levava consigo folhas secas, papéis e plásticos , que esvoaçavam  como pipas pelos ares... inclusive, também,  sacudindo os galhos e folhas das árvores...

                            Via-se o desfilar de vultos estranhos, que se misturavam no ritual macabro ... enquanto no ar  vagavam os vagalumes e pirilampos, o pessoal carregava velas acesas , cujas  luzes  temporárias , assustavam as corujas, outras aves notívagas, e os morcegos, estes em seus vôos rasantes, quase tocando as nossas cabeças , fazendo com que o maior dos machões , ou a mais corajosa das mulheres, sentisse arrepios de cima em baixo, ocasionando o bambear das pernas, em rápidas e ocultas tremedeiras....

                            Os que iam chegando, iam colocando as suas velas ao lado do Cruzeiro, e de lá enviavam luzes , que misturadas à luminosidade dos faróis dos veículos que passavam lá fora, e, momentaneamente , iluminavam lá dentro, nos mostrando  o desfile macabro das pessoas com máscaras e fantasias, de vampiros, caveiras, lobisomens, fantasmas, sacís, bruxas, zumbís e duendes.

                             Paralelamente, a tudo isso,  acontecia também, no mesmo local , um desfile mais rápido de lagartos,  largatixas ,  ratos, calangos, baratas, formigas e aranhas, sob o som  musical dos grilos ,  e o  tristonho coaxar das rãs e dos sapos...

                            Ouvia-se adiante, os miados soturnos dos gatos pretos, e, depois, o uivar dos cães , parecendo lobos, completando o característico cenário dos filmes de terror...
        

                            Ao nosso lado, caminhava alguém com uma notória , fantástica e chocante fantasia , composta de uma máscara horrenda, era de bruxa, e , desde logo, já se imaginava ser ela a  forte concorrente ao prêmio daquela importante noitada... não havia nada mais feio, simplesmente, horripilante !

                            Continuava a lenta caminhada, cada um observando o outro, cada passo, cada gesto, quase não se falava, apenas de quando em vez, um cochicho, um murmúrio , e vagas e pequenas risadas...

                            Olhava-se, desde a cabeça até os pés... do chapéu ou capuz, da máscara, até as botas ou botinas... as vestes reluzentes, as capas e mantos esvoaçantes, as luvas, tanto as de borrachas, plásticas  ou de cetins, eram   de um modo, quase que geral,  pretas, mas, haviam também as brancas que contrastavam com a maioria das vestes  negras....


                            Espalhadas pelo vasto cemitério, haviam sido colocadas as enormes caveiras, feitas de abóboras, mamões , e até de melancias ôcas, em cujo interior, foram colocadas velas acesas, que  destacavam os furos, simbolizando os olhos, as bocas e narizes, fazendo do ambiente  lúgubre, mais funéreo ainda, próprio para aquela ocasião .


                            Muitos traziam caixas de isopor, contendo gelo, ou garrafas de água gelada, que era para que se enfiasse as mãos ou as luvas, para depois tocarem as pessoas circunstantes, mostrando o gélido sentido da morte, ou dos mortos.

                            Era mesmo de arrepiar todos os cabelos !.  Tanto os da cabeça, como os dos “cutuvelos”...




                            Ao longe, ouvíamos o ressoar do sino da matriz, enviando aos ares,  as doze badaladas, que anunciavam ser meia noite, horário triunfal do início do desfile de horrores....

                            Quando  passávamos  pelas avenidas e quadras da necrópole, olhando  de um lado para outro, às vezes até para  trás, líamos nas lápides os diversos nomes dos ocupantes  das variadas sepulturas, jazigos, túmulos e covas, de cada pessoa conhecida, familiar, amiga, ou desconhecida, que haviam há muito tempo, ou até recentemente, partido para o outro lado da vida , e de cada uma , nos vinha uma série de vagas e  profundas, alegres e tristes,  recordações ...


                            No desfile , cada pessoa ou  participante,  empunhava, senão um cajado, uma vara, algumas  enormes, outras pequenas vassouras, espadas, lanças,  foices, facões ,  punhais, chicotes, laços, bengalas,etc...


                           Até que então, chegou o momento tão esperado da proclamação da fantasia vencedora, cuja personagem, deveria se revelar, tirando a máscara, para receber os aplausos e o prêmio ... já  se adentrava   a  noite , avizinhando-se a madrugada...


                            Ganhara a fantasia  cintilante da Bruxa, que ostentava uma máscara horrenda , empunhando em uma das mãos uma foice, noutra  enorme vassoura, a mulher que viera de fora, talvez, de Lins, Guaimbê,  Cafelândia ou Promissão  ...e fizera a  sua inscrição, no concurso,  pelo telefone, vencera a competição...


                            Naquele instante , os demais participantes passaram a retirar as suas máscaras , e  solicitavam à vencedora que fizesse o mesmo, a fim de se revelar, dando o seu nome, mostrando o seu rosto, e  ressaltando  seu endereço, para conhecimento de todos...

                            A Bruxa vencedora, se negava em retirar sua máscara, mas insistia em levar o seu prêmio...

                            Aqui  entre  nós, após variados falatórios e discussões, a Campeã da noite , pediu a palavra,  e disse em alto brado e bom som : -  Eu não estou mascarada... eu sou assim mesma...

                            Em seguida, soltando estridente e sarcástica gargalhada  subiu sobre sua vassoura e alçou vôo, passando sobre os jazigos, túmulos , covas, e  todos nós ,  voou longe, perdendo-se na escuridão...

                            Todos ficaram  pasmos e assustados, desde os mais machões até os mais medrosos dos participantes, que  tremendo como varas verdes, olharam para todos os lados...e  saíram   em debandada carreira, largando tudo para trás,  e levando tudo no peito, pulando o alto muro do cemitério, rumando  cada um para sua casa, a fim de livrar-se , o quanto antes  da fedentina, originária das fezes que escorriam  pelas   pernas abaixo , e, procurando, para limparem-se,   tomar aquele banho, regado às mais variadas e perfumadas essências...




                                                                  Milton  Hauy

sábado, 25 de fevereiro de 2012

MINHA VELHA INFÂNCIA

Às  vezes, saio sozinho pela rua à procura daquele menino de olhos claros, calças curtas,  pés descalços , peito nu, cabelos por pentear, que saiu à procura de outros meninos iguais, com  estilingue  no pescoço, bornal de pano cheio de bolotas de barro , vindo da Olaria do Marco Zanco, e ou, bolinhas de vidro, usadas para provocar os pássaros ,  estilhaçar as vidraças alheias, ou ainda derrubar mangas e outras frutas....

                            E o procuro, também, à beira do riacho, na rua de baixo, ou então próximo ao moinho de fubá, perto do matadouro... adiante na lagôa... nas proximidades do campão, em algum campinho , correndo atrás de uma bola de meia, de borracha ou  até de  capotão...

                            Passo depois, na rua do Grupo Escolar, perto da casa do Alécio Bernardes(Alecião), , do Toninho Rabito, do Celso  Capitão, Dinho  Polenta,  Armandinho (Picovo) Alfieri, Betão e Rubinho Sterse,  Osorinho e Carlinho Parreira...do Dutra, do Chico 21, do Pedro Silva, Pedrinho Araujo, Antonio (Tatuí) Paes de Almeida, José (Bala) Carlos Isaias, Elcio  Pimenta de Pádua, Onivaldo (Budê) Martins, José (Gueré) , Oliveira (Guinho) Vasques, Zé  Bereba, Isaías  Bonfim, Florindo (Macarrão) Delalíbera, Ademar Carlos dos Santos....




                            Não o encontro, mais vejo se avisto o Nicolau Armeli, o Mário Foki Takeda , o Toninho Mengato...ou ainda, o Patico, Pérsio Leite, Carlos Tonza, Betão e Rui Bertoni, ou então o Singe Okoshi, Walter, Bolivar (Boli) e Lineo Canazzaro...Piolim e Zéca Rigoldi, Chiquinho Mattos, Hermelindo Schuindt, Nelsinho Perche,José Roberto (Poli) Bicudo, Tonico e Marival Trazzi, Tostian, Minoru, Sáburu e Renê Aoki, Mitiaki Hosoi, Toshio ,Tomio,  Eikiti e Sumió Noda...o Linconl Chinchila, Adalberto (Mazaropi) Macedo, Mashuo (Maipú) Kato, Athaide  Walter(Ventila) da Silva, Wanderlei (Gata) e Duílio Vivan, Angelim (Alitiátia) e Roquinho Tricárico, Wagner Zanco, Armando(Burôca) Nakamura, Luiz (Nêgo) Zabeu, Eduardo (Baiano) de Mattos, Tico e João Cioni, Joelzinho de Pádua Albuquerque, Ildeu e Ivan Peres Leite, Sebastião Luiz (Fuzileiro) Tavares,  Roberto (Beto) Leão, Hugo e Mauro Guilherme, Marinho Martinucci, Ildo e Abelardo Caliani, Luiz e Geraldo Cardoso, Celso Correia, Ilson e Toninho  Gonçalves, Alvino Delgado, Ladislau Domingues, Olaíde  Pedro, Ademar (Miosótis) de Oliveira, Alfredinho Prazeres, Jorge Ducci, Wilson e Rui Lima Alves, Jorge Sonoda,Darci e Danilo Alves, Wanderlei (Peru) de Oliveira, Teodoro Sato, Dinei, Vardo, Quéio e Quetão Falqueiro, Carmo (Minão) Martins,  Balô, Ditão e Dinho Biondo, Elpidio Lopes,     Jaime Bozelli, Orlando Deverlan, Eudaldo (Dado)Borges de Souza, Raul Becegato, Silvio (Tingido)e Luizinho Godoy, Iguatemi de Oliveira Lima,   Onofre, Moacir   e Ledo Giorgiani, Edson Eler, Zéca Leão, Vitório e Mitio Goto, Padreco, Canarinho e Quinhentão Fonseca, Tonico Dinalli, Francisco Osmar Ambrósio, Waldir e  Oldenir (Bill) Nochi, José Roberto (Pó de Arroz) de Fully, Abelardo e Nico da Silva, Zé (Botéco) Monte, Carmelo Pagliuso, Waldomiro (Dinho) Bana, Euclides (Cridio) Zuliani, Toninho (Pizza) e Carlinho Cecilio, Élio (Gibóia) Penachio, Geraldo (Gêra) Gregório , Geraldo e Alcindo dos Santos, Joaquim (Quincas) Rebouças, Arlindo (Carabina) Silva, Zé Luiz Veloso, Francisco (Chico) e Salvador (Bolinha)  Alves, Paulo (Peba) Uemura, Munir Salhani, Atushe  (Bodão)Nakao, Pepê Campos Marques, Chico Lôco Selari, Sadao da Quitanda... e muitos outros...

                                      Continuava a  vagar pelas ruas descalças de nossa Getulina, na  ansiosa busca pelo menino que desaparecera....

                                      Será que está jogando bola  ou futebol ?
                                      Brincando de cirquinho, embaixo do porão... esconde-esconde... de salva ... de pique ...de mocinho e bandido... jogando botão, petéca, voley, basquete, pingue-pongue, hand ball, basebol (no campo da Vila Bana), queimada,  rapa tudo, bolinhas de gude....teria ido nadar na cachoeirinha ou na lagoinha ? 

                                      Acho que foi  tomar um  sorvete Spumoni  no Pinguim...  um picolé cremoso lá no Quixaba...ou no Bar do Mané Camelo...ou, ainda, estará brincando no coreto lá da Praça ?

                                      Teria ido ao Cine Getulina, ou  ao Cinema do Padre ...  ao Circo Ayres ...ao Parque  de Diversões, que armou lá perto do Bar da Areia ?

                                      Fora, talvez, comprar um pirulito, uma cocada, uma  sombrinha de balas,  algum  algodão doce...
                                     
                                      Será que foi no Bar do Bibí, que depois foi do Murakami, tomar refresco e  comer alguma empadinha feita pela Dona Olga, ou picadinho de carne no Bar do Dito e Paulo Watinaga,ou,  lá na Cantina 160 comer um pastel feito pela  Dona Norma  e seu Galvão , ou pela  Dona Zezé e seu Cirineu Volpini?

                                      Ou então,  no Bar do Zé Benedito,  comer um salgadinho e tomar  um gole de cacau... estará presenciando o footing, em frente ao jardim, ou ouvindo as músicas da “Voz de Getulina “?

                                      Com esse enorme calor, talvez, esteja chupando bala piper, para depois tomar um copo d’água, a fim de que ela fique gelada...

                                      Os seus colegas também haviam desaparecido... alguns foram embora para sempre... outros, para outras localidades...e os que pareciam estar na cidade , tinham outras características... estavam maiores, fisionomias  estranhas... os que não estavam ficando calvos, tinham os cabelos brancos... algumas rugas na testa e  nos rostos... parecendo que num toque de mágica, ou de interpretação teatral, pretendiam envelhecer...

                                      Crianças !   Meninos !  Moços ! Rapazes !  Vejam o  que fizeram, e ou,  estão fazendo de sua juventude ?

                                      Corram para refletirem-se nas águas do riacho, lá de baixo, e vejam que máscaras estão usando...

                                      Peçam que o riacho lhes devolva o menino de antes...tirem e rasguem as máscaras... a brincadeira terminou...

                                      Aqui  entre  nós, voltemos aos bons dias de antes... em que a gente era  mais gente... o menino  de então, possuía amigos e companheiros de verdade... pai, mãe,  avô, avó, tios, tias, primos e primas, padrinho, madrinha... hoje... não possui mais nada...
                                      Menino...Ô menino...onde está você ?!?
                                                       

Milton  Hauy