domingo, 15 de abril de 2012

BASTIÃO CARA FEIA

Umas das coisas que mais marcou a  minha infante/juventude, foi conhecer as estórias e a história de nossa Getulina.

                            No início de nossa terra, tudo era mata,  e dentro dela moravam os donos dela, que eram os índios das tribos Caingangues, os primeiros habitantes destas paragens .


                            Tempo em que duas grandes Famílias : os Barbosas e os Queiroz, disputavam  a grande gleba.


                             Conheci anos depois, a figura lendária do Coronel Joaquim Barbosa de Morais, que na primitiva época,  dominava a grande disputa, grilando terras,  juntamente com seus capangas, e dentre eles, falo hoje, de um dos mais famosos comparsas do Coroné, o  temido “Bastião Cara Feia”, pessoa que também conheci, já provecto,  amparando-se  em uma  bengala, em cujo bojo escondia  um  grande punhal.

                           

                                 Era um homem de estatura mediana, moreno, magro, quase esquelético, andava ensebado, pela falta de higiene, tanto no corpo, como nas roupas e nos cabelos, que como  suas unhas,  eram compridos.
                            Contava-me  o “Cara Feia “ – após pagar-lhe alguns tragos (motivo pelo qual nasceu a nossa amizade) alí na Cantina 160, que ficava na Rua  Carlos de Campos, esquina com a Ataliba Leonel – algumas histórias do seu tempo de lutas e labutas em favor do Coroné.

                            Dizia-me, que  vira matar e matara muita gente, e ainda, antes de morrer, teria que matar mais uma pessoa (por mais que eu insistisse, não consegui descobrir quem seria essa pessoa), porisso, contou-me, mostrando o oculto punhal que trazia em sua bengala.

                            Matara, dizia, muitos homens metidos a valentões, vários moços, mulheres, moças e velhos, inclusive muitos índios, que surgiam em seu caminho, tomando-lhes as casas, as roupas, e as terras.

                            Muitas vezes, ateou fogo aos casebres e choças, destruindo tudo...

                            Narrava  tudo com uma naturalidade incrível, como se aquilo que contava, fossem  coisas normais... mas, confessou-me, certo dia, digo, numa certa tarde, que nunca se esquecera, e até se arrependera de ter feito, em uma das tomadas de terras, ao saquear uma das casas, depois de dominar, judiar e matar os seus moradores, no exato momento em que os executava, uma criancinha chorava no berço... recordava que, ao aproximar-se aquele anjinho  parou de chorar , e até lhe sorriu, mas, ele nem ligou para aquilo, pegou e jogou a criança para cima e a aparou no  seu enorme punhal, varando-a mortalmente; que, essa era a única empreitada que se arrependera de fazer, pois ainda hoje, à todo momento, parecia ainda escutar o choro daquela criança, que lhe atordoava os ouvidos ...

                            Arrepiava-me ao ouvir aquelas histórias, mas, a curiosidade aguçava mais, e eu insistia em seus pormenores...

                            A pigarra lhe interrompia, de quando em vez, as emocionantes e aterrorizadoras narrações.       

                            Morava em uma velha garagem, que ficava na Rua Ataliba Leonel, esquina com a Albuquerque  Lins, pertencente à mesma caridosa família, que lhe fornecia  gratuita  alimentação.


                            Nos últimos meses de vida, já não aguentava mais sair de casa, ou melhor, daquela velha  esteira que  lhe  servia de cama.

 Chegava a feder,( pois as pessoas caridosas e vizinhas, costumavam higienizá-lo, à cada quinze dias, um mês...) e, ele  estava cada dia mais feio, horroroso, suas unhas sujas e muito compridas, aqueles cabelos  longos e ensebados de sujeira, sua voz cavernosa e mente senil,  metiam medo , não só nos mais jovens, como também nos adultos.

Até que certa tarde, quando estava jogando futebol, uma pelada,  ali na rua próxima à sua morada, soubemos pelo Cridio   Zanco,( pessoa hoje saudosa, e uma das criaturas caridosas que na época  ajudavam o velho Tião Cara Feia) que ele havia morrido, pois chegara a urrar de dor pela madrugada e  vinha sofrendo muito, nos últimos dias...


Assim, findava a vida daquele capanga, que fora um maldoso jagunço,  tão temido, e que nos últimos tempos, parecia um verme a arrastar-se, e depois, ficara isolado na sua esteira, exalando odores repugnantes, amargando intimamente as maldades que fizera nos seus tempos de  matador.


Aqui entre nós, o Tião, ou Bastião  Cara Feia, segundo consta, não conseguiu cumprir com o prometido de matar mais uma pessoa, como falava em fazer.

Talvez essa pessoa fosse ele mesmo,  quem sabe ?!?

 Mas, para isso, nem mais possuía força para fazer, nem praticar seu  eventual suicídio.

Com certeza, está ele,  sofrendo  nos caldeirões  ferventes  de  Satanás (pois, nem  chances deve ter tido de arder no mármore quente do inferno) , pois fora a sua encarnação aqui em nossa terra, nos seus  primórdios tempos, e pode até ter retornado , sabe-se lá como, quando e onde  !?!

Essa nossa terra, tem muitas histórias, e estórias, para  serem ouvidas , contadas e repetidas ... basta ter tempo e muita  paciência, não acha ?



                                     Milton  Hauy

sábado, 17 de março de 2012

A MÃE DE DEUS E NOSSA

Vivia-se  o final da década de 1940, e  Getulina começava a dar os seus primeiros passos rumo ao progresso.

                            Um casal de comerciantes, em nossa população,  lutava para sobreviver e alimentar sua prole, cujo filho caçula  contraíra um mal , e os  médicos da localidade, apesar de suas aptidões,  competências e habilidades, não conseguiam curá-lo.

                            O menino  tinha, mais ou menos, seis anos de idade, era prodígio,  e  como toda a sua família, benquisto por todos, não só no mundo infantil, como adulto.

                            Sofria de dores terríveis , e seus  gemidos eram ouvidos à longa distancia...

                            Como naquele tempo não havia, em Getulina, nenhuma geladeira ( e as que existiam em outras localidades eram importadas, pois não se fabricavam, ainda, geladeiras no Brasil), o irmão mais velho do menino, toda tarde,  comprava e  trazia de Lins, em uma caixa,  em meio a  palha de arroz, bastante gelo, que era para , vagarosamente, fazer compressas sobre a barriga do garoto, a fim de minimizar suas dores.

                            A mãe do garoto, era ardorosa devota de Nossa Senhora  Aparecida, e colocara no criado mudo , ao lado da cama do menino, uma pequena imagem da Santa.

                            O menino , de vez em quando , orava com sua mãe, rogando à Nossa Senhora, para que ajudasse  a curar  sua doença, e costumava passar a imagem da Santa por sobre  a  sua barriga, onde internamente o mal lhe consumia, e este ato amenizava as suas dores...

                            Os  seus familiares e amigos estavam desesperados, pois cada dia que passava , as dores aumentavam, o menino emagrecia, e os quatro médicos que o assistiam, ficavam desanimados, pois,  os medicamentos mais modernos da época, estavam sendo empregados ... e nada de melhora !

                            Assim é que a mãe do garoto, fez uma promessa à Nossa Senhora Aparecida, implorando que a mesma intercedesse junto à Deus , a fim de cura-lo, e  se  isso acontecesse ,ela iria até a cidade da Aparecida do Norte, juntamente com ele, e lá acenderia uma vela do tamanho que o menino estivesse , além de se abster de uma porção de coisas, e enquanto vivesse faria caridade, auxiliando os menos favorecidos pela sorte.

                            Naquele tempo, não  era tão fácil, como agora, ir até  a Basílica  da Padroeira do Brasil, pois só para ir até São Paulo,  levava mais de um dia de viagem ...

                            Até que um dia, os médicos ,após ouvirem a opinião de muitos de seus colegas, tanto de Guaimbê, como de Lins, à quem o doente foi submetido à consultas, exames e observações,   desistiram, chamaram os pais  do menor e manifestaram  não haver mais meios na medicina em salvá-lo...

                            Mais desesperados ainda,  os pais do menino, resolveram que o levariam  para tratamento  na Capital, ocasião que os médicos disseram, que podiam  levá-lo, apenas para desencargo de consciência, pois cura não mais haveria...


                            O casal largou todos os seus negócios em nossa cidade, e tomando um avião , Bimotor da Real , no aeroporto de Lins, rumaram até São Paulo, levando o garoto, que foi,  contorcendo em dores...

                            Com muita fé na Santa, e na esperança de encontrar novos medicamentos na Capital Paulista, lá chegaram os três, indo  para o Hospital da Beneficência  Portuguesa, onde tiveram boa acolhida.

                            O novo médico era sobrinho do pai do menino, que após examiná-lo ,  receitou-lhe alguns medicamentos, que deveriam ser tomados  em  vários horários, com rigorosa pontualidade, mas, não haveria necessidade de ficar internado, mas, sim, permanecer por alguns dias ainda na Capital.

                            O que foi feito, indo, o casal de Getulina e seu filho, para a casa de parentes, que residiam em São Paulo.

                            A mãe do garoto não largava o terço, nem o menino a imagem da Santa.

                            Naquele terço, vários rosários foram rezados, invocando o auxílio da  sua grande Protetora.

                            “Daí- nos a benção... ó Mãe querida...
                            Nossa Senhora, Aparecida....

        
                           
                            Passados dois dias, já não mais se via o menino contorcer-se em dores, e , em  menos de uma semana,  foi ficando cada vez melhor, até notar-se , que a sua face , antes pálida , estava  com bonito e notório  rubor , e  o mesmo passara até engordar... 

                            Voltando  ao Hospital, o médico admirou-se com o breve restabelecimento do garoto , assim como todos os que o viram chegar... estava curado !

                            Milagre !

                            “ Nossa Senhora, me dê a mão...

                            Cuida do meu coração...

                            Da minha vida... do meu destino...

                            Do meu caminho...

                            Cuida  de  mim...”
        
                           
                            Já podiam retornar ao interior, foi o que fizeram, após, agradecerem à todos lá do Hospital, bem como, alguns amigos e parentes,  depois de  batizarem o menino, que teve como padrinhos, os seus tios, que o acolheram  em São Paulo.

                            Retornando à Getulina, a população  local, também, ficou espantada com a rápida melhora, de quem até  iria morrer precocemente...


                            Os médicos daqui,  não erraram no tratamento, nem os da Capital acertaram, eles nem acreditavam no que viam... todos enfim,  comentavam : - Verdadeiro  Milagre !

                            “Viva  a Mãe de Deus e Nossa...

                            Sem pecado concebida...

                            Viva a Virgem  Imaculada ...


                            A Senhora   Aparecida....”


                            Realmente ,as preces foram atendidas , e Nossa Senhora Aparecida intercedeu , diretamente, na cura do menino, que iria morrer aos seis anos de idade... Anos depois, a promessa foi cumprida, e lá, na Aparecida do Norte,  diante da Virgem Milagrosa , emocionados, choraram felizes,  tanto a mãe, como o filho, agradecidos...acenderam  uma vela no velho  Santuário , do tamanho do menino, que já era moço, e colocaram uma foto dele , na Sala dos Milagres(cheia de provas  de incontestes milagres da Santa) após, antes, terem andado pelas ruas próximas à Igreja, cheias de bares, bazares, lojas, e barracas, vendendo doces, salgados, bebidas, além de imagens, medalhas, correntes, fitas, quadros e gravuras da nossa Padroeira.

                            Sem ninguém  saber,  nem poder explicar, a pequenina imagem , que o menino tinha, em Getulina,   ao lado de sua cama, sobre o criado mudo, após sua cura,  misteriosamente, desapareceu....

                            Seus pais, e alguns familiares, já morreram, - ou melhor, foram primeiro para junto de Deus, estando  ao lado da Virgem, também velando por nós... -   mas, são muitas pessoas, além dele, muitos parentes e amigos,  que conhecem e vivenciaram   essa história triste,  árdua, feliz, emocionante  e  milagrosa !

                            É mais uma prova, dentre milhares de milagres que a Virgem, Imaculada Conceição Aparecida fez, e continua fazendo a cada dia que passa... cuja Imagem primeira( ainda existente na Basílica de Aparecida) foi resgatada das águas, em uma rede, em duas etapas, corpo e cabeça, por pescadores  no  Rio Paraíba, em uma tarde, que até então não haviam pescado nada, e depois, suas canoas ficaram abarrotadas de peixes...

                            E essa, é nossa  agradecida e singela homenagem à Mãe de Deus e  nossa...



                            Aqui entre nós, aquele menino doente , ficou completamente curado, cresceu, estudou, teve uma juventude mais sadia ainda,  formou-se, em uma porção de cursos, casou-se, tornou-se pai, e  já é avô, de dez  netos, já tem até uma bisneta; ele que  iria morrer com  seis , hoje já passou dos sessenta anos, continua fervoroso devoto de Nossa Senhora Aparecida, que nunca o desamparou, inclusive,  em outras horas difíceis que surgiram ao longo do tempo...e sempre, que ele a invoca, é atendido,  tanto  em seu auxílio, como  em socorro  de outras pessoas...

                            Você ,talvez, até o conheça... ele costuma escrever crônicas, é poeta,agora tem blogger na internet, e continua  aqui entre nós....


                                                                  Milton  Hauy 

segunda-feira, 5 de março de 2012

UMA NOITE DE HORROR

Faz muito tempo, e a  nossa turma  resolveu fazer,  de uma noite linda, romântica , estrelada, uma noite macabra , horrenda, terrível...

                            E falava-se até em premiar a fantasia mais bonita, a melhor, a mais original, ou seja,  a mais horrível, que metesse medo em todos...


                            Marcou-se, para a então próxima sexta-feira, 13, de um mês qualquer ( isso, é para não invocar algum aniversariante  do então mês, criando problemas...).

                            O lugar  escolhido, foi  o   cemitério, por volta da meia noite (vejam só, tanto lugar para se brincar, e a nossa juventude preferia , involuntariamente,  profanar  o campo santo , local que, sempre, mais progrediu, e progride,  em nossa terra).

                            Pularíamos o muro, ou entraríamos pela valeta, e nas proximidades do cruzeiro nos concentraríamos , para o grande e esperado encontro...

                            O regulamento previa que, também,  se poderia levar pequenas lanternas, lampiões, fósforos e  velas.


                            Assim foi feito.

                            Mas, não foi grande o número de concorrentes, que se esperava, pois houve muitas desistências  de última hora, da então programada  participação, alegando as mais esfarrapadas desculpas,  a fim de encobrirem o medaço dos cagões...

                            Apesar disso, teve  até uma inscrição, feita por telefone, de uma jovem de Lins,  Guaimbê, Cafelândia ou Promissão.


                            Os  pré aquecimentos  para o  tétrico desfile, foram feitos nos mais diversos bares de nossa cidade, pela grande maioria, que tratou de ingerir cervejas, chopps,  pingas, vodkas, wiskis, champagnes, conhaques  e vinhos.

                            A noite parecia ter sido desenhada para o  grande evento das muitas  travessuras e poucas gostosuras...

                            No entanto, não era de lua cheia, e sim, quarto minguante, estrelada, escura, nevoenta, apesar de fresca, cuja brisa fazia ventar ora de leve, outras vezes, fortemente, um vento vagabundo que, assobiando,  levava consigo folhas secas, papéis e plásticos , que esvoaçavam  como pipas pelos ares... inclusive, também,  sacudindo os galhos e folhas das árvores...

                            Via-se o desfilar de vultos estranhos, que se misturavam no ritual macabro ... enquanto no ar  vagavam os vagalumes e pirilampos, o pessoal carregava velas acesas , cujas  luzes  temporárias , assustavam as corujas, outras aves notívagas, e os morcegos, estes em seus vôos rasantes, quase tocando as nossas cabeças , fazendo com que o maior dos machões , ou a mais corajosa das mulheres, sentisse arrepios de cima em baixo, ocasionando o bambear das pernas, em rápidas e ocultas tremedeiras....

                            Os que iam chegando, iam colocando as suas velas ao lado do Cruzeiro, e de lá enviavam luzes , que misturadas à luminosidade dos faróis dos veículos que passavam lá fora, e, momentaneamente , iluminavam lá dentro, nos mostrando  o desfile macabro das pessoas com máscaras e fantasias, de vampiros, caveiras, lobisomens, fantasmas, sacís, bruxas, zumbís e duendes.

                             Paralelamente, a tudo isso,  acontecia também, no mesmo local , um desfile mais rápido de lagartos,  largatixas ,  ratos, calangos, baratas, formigas e aranhas, sob o som  musical dos grilos ,  e o  tristonho coaxar das rãs e dos sapos...

                            Ouvia-se adiante, os miados soturnos dos gatos pretos, e, depois, o uivar dos cães , parecendo lobos, completando o característico cenário dos filmes de terror...
        

                            Ao nosso lado, caminhava alguém com uma notória , fantástica e chocante fantasia , composta de uma máscara horrenda, era de bruxa, e , desde logo, já se imaginava ser ela a  forte concorrente ao prêmio daquela importante noitada... não havia nada mais feio, simplesmente, horripilante !

                            Continuava a lenta caminhada, cada um observando o outro, cada passo, cada gesto, quase não se falava, apenas de quando em vez, um cochicho, um murmúrio , e vagas e pequenas risadas...

                            Olhava-se, desde a cabeça até os pés... do chapéu ou capuz, da máscara, até as botas ou botinas... as vestes reluzentes, as capas e mantos esvoaçantes, as luvas, tanto as de borrachas, plásticas  ou de cetins, eram   de um modo, quase que geral,  pretas, mas, haviam também as brancas que contrastavam com a maioria das vestes  negras....


                            Espalhadas pelo vasto cemitério, haviam sido colocadas as enormes caveiras, feitas de abóboras, mamões , e até de melancias ôcas, em cujo interior, foram colocadas velas acesas, que  destacavam os furos, simbolizando os olhos, as bocas e narizes, fazendo do ambiente  lúgubre, mais funéreo ainda, próprio para aquela ocasião .


                            Muitos traziam caixas de isopor, contendo gelo, ou garrafas de água gelada, que era para que se enfiasse as mãos ou as luvas, para depois tocarem as pessoas circunstantes, mostrando o gélido sentido da morte, ou dos mortos.

                            Era mesmo de arrepiar todos os cabelos !.  Tanto os da cabeça, como os dos “cutuvelos”...




                            Ao longe, ouvíamos o ressoar do sino da matriz, enviando aos ares,  as doze badaladas, que anunciavam ser meia noite, horário triunfal do início do desfile de horrores....

                            Quando  passávamos  pelas avenidas e quadras da necrópole, olhando  de um lado para outro, às vezes até para  trás, líamos nas lápides os diversos nomes dos ocupantes  das variadas sepulturas, jazigos, túmulos e covas, de cada pessoa conhecida, familiar, amiga, ou desconhecida, que haviam há muito tempo, ou até recentemente, partido para o outro lado da vida , e de cada uma , nos vinha uma série de vagas e  profundas, alegres e tristes,  recordações ...


                            No desfile , cada pessoa ou  participante,  empunhava, senão um cajado, uma vara, algumas  enormes, outras pequenas vassouras, espadas, lanças,  foices, facões ,  punhais, chicotes, laços, bengalas,etc...


                           Até que então, chegou o momento tão esperado da proclamação da fantasia vencedora, cuja personagem, deveria se revelar, tirando a máscara, para receber os aplausos e o prêmio ... já  se adentrava   a  noite , avizinhando-se a madrugada...


                            Ganhara a fantasia  cintilante da Bruxa, que ostentava uma máscara horrenda , empunhando em uma das mãos uma foice, noutra  enorme vassoura, a mulher que viera de fora, talvez, de Lins, Guaimbê,  Cafelândia ou Promissão  ...e fizera a  sua inscrição, no concurso,  pelo telefone, vencera a competição...


                            Naquele instante , os demais participantes passaram a retirar as suas máscaras , e  solicitavam à vencedora que fizesse o mesmo, a fim de se revelar, dando o seu nome, mostrando o seu rosto, e  ressaltando  seu endereço, para conhecimento de todos...

                            A Bruxa vencedora, se negava em retirar sua máscara, mas insistia em levar o seu prêmio...

                            Aqui  entre  nós, após variados falatórios e discussões, a Campeã da noite , pediu a palavra,  e disse em alto brado e bom som : -  Eu não estou mascarada... eu sou assim mesma...

                            Em seguida, soltando estridente e sarcástica gargalhada  subiu sobre sua vassoura e alçou vôo, passando sobre os jazigos, túmulos , covas, e  todos nós ,  voou longe, perdendo-se na escuridão...

                            Todos ficaram  pasmos e assustados, desde os mais machões até os mais medrosos dos participantes, que  tremendo como varas verdes, olharam para todos os lados...e  saíram   em debandada carreira, largando tudo para trás,  e levando tudo no peito, pulando o alto muro do cemitério, rumando  cada um para sua casa, a fim de livrar-se , o quanto antes  da fedentina, originária das fezes que escorriam  pelas   pernas abaixo , e, procurando, para limparem-se,   tomar aquele banho, regado às mais variadas e perfumadas essências...




                                                                  Milton  Hauy

sábado, 25 de fevereiro de 2012

MINHA VELHA INFÂNCIA

Às  vezes, saio sozinho pela rua à procura daquele menino de olhos claros, calças curtas,  pés descalços , peito nu, cabelos por pentear, que saiu à procura de outros meninos iguais, com  estilingue  no pescoço, bornal de pano cheio de bolotas de barro , vindo da Olaria do Marco Zanco, e ou, bolinhas de vidro, usadas para provocar os pássaros ,  estilhaçar as vidraças alheias, ou ainda derrubar mangas e outras frutas....

                            E o procuro, também, à beira do riacho, na rua de baixo, ou então próximo ao moinho de fubá, perto do matadouro... adiante na lagôa... nas proximidades do campão, em algum campinho , correndo atrás de uma bola de meia, de borracha ou  até de  capotão...

                            Passo depois, na rua do Grupo Escolar, perto da casa do Alécio Bernardes(Alecião), , do Toninho Rabito, do Celso  Capitão, Dinho  Polenta,  Armandinho (Picovo) Alfieri, Betão e Rubinho Sterse,  Osorinho e Carlinho Parreira...do Dutra, do Chico 21, do Pedro Silva, Pedrinho Araujo, Antonio (Tatuí) Paes de Almeida, José (Bala) Carlos Isaias, Elcio  Pimenta de Pádua, Onivaldo (Budê) Martins, José (Gueré) , Oliveira (Guinho) Vasques, Zé  Bereba, Isaías  Bonfim, Florindo (Macarrão) Delalíbera, Ademar Carlos dos Santos....




                            Não o encontro, mais vejo se avisto o Nicolau Armeli, o Mário Foki Takeda , o Toninho Mengato...ou ainda, o Patico, Pérsio Leite, Carlos Tonza, Betão e Rui Bertoni, ou então o Singe Okoshi, Walter, Bolivar (Boli) e Lineo Canazzaro...Piolim e Zéca Rigoldi, Chiquinho Mattos, Hermelindo Schuindt, Nelsinho Perche,José Roberto (Poli) Bicudo, Tonico e Marival Trazzi, Tostian, Minoru, Sáburu e Renê Aoki, Mitiaki Hosoi, Toshio ,Tomio,  Eikiti e Sumió Noda...o Linconl Chinchila, Adalberto (Mazaropi) Macedo, Mashuo (Maipú) Kato, Athaide  Walter(Ventila) da Silva, Wanderlei (Gata) e Duílio Vivan, Angelim (Alitiátia) e Roquinho Tricárico, Wagner Zanco, Armando(Burôca) Nakamura, Luiz (Nêgo) Zabeu, Eduardo (Baiano) de Mattos, Tico e João Cioni, Joelzinho de Pádua Albuquerque, Ildeu e Ivan Peres Leite, Sebastião Luiz (Fuzileiro) Tavares,  Roberto (Beto) Leão, Hugo e Mauro Guilherme, Marinho Martinucci, Ildo e Abelardo Caliani, Luiz e Geraldo Cardoso, Celso Correia, Ilson e Toninho  Gonçalves, Alvino Delgado, Ladislau Domingues, Olaíde  Pedro, Ademar (Miosótis) de Oliveira, Alfredinho Prazeres, Jorge Ducci, Wilson e Rui Lima Alves, Jorge Sonoda,Darci e Danilo Alves, Wanderlei (Peru) de Oliveira, Teodoro Sato, Dinei, Vardo, Quéio e Quetão Falqueiro, Carmo (Minão) Martins,  Balô, Ditão e Dinho Biondo, Elpidio Lopes,     Jaime Bozelli, Orlando Deverlan, Eudaldo (Dado)Borges de Souza, Raul Becegato, Silvio (Tingido)e Luizinho Godoy, Iguatemi de Oliveira Lima,   Onofre, Moacir   e Ledo Giorgiani, Edson Eler, Zéca Leão, Vitório e Mitio Goto, Padreco, Canarinho e Quinhentão Fonseca, Tonico Dinalli, Francisco Osmar Ambrósio, Waldir e  Oldenir (Bill) Nochi, José Roberto (Pó de Arroz) de Fully, Abelardo e Nico da Silva, Zé (Botéco) Monte, Carmelo Pagliuso, Waldomiro (Dinho) Bana, Euclides (Cridio) Zuliani, Toninho (Pizza) e Carlinho Cecilio, Élio (Gibóia) Penachio, Geraldo (Gêra) Gregório , Geraldo e Alcindo dos Santos, Joaquim (Quincas) Rebouças, Arlindo (Carabina) Silva, Zé Luiz Veloso, Francisco (Chico) e Salvador (Bolinha)  Alves, Paulo (Peba) Uemura, Munir Salhani, Atushe  (Bodão)Nakao, Pepê Campos Marques, Chico Lôco Selari, Sadao da Quitanda... e muitos outros...

                                      Continuava a  vagar pelas ruas descalças de nossa Getulina, na  ansiosa busca pelo menino que desaparecera....

                                      Será que está jogando bola  ou futebol ?
                                      Brincando de cirquinho, embaixo do porão... esconde-esconde... de salva ... de pique ...de mocinho e bandido... jogando botão, petéca, voley, basquete, pingue-pongue, hand ball, basebol (no campo da Vila Bana), queimada,  rapa tudo, bolinhas de gude....teria ido nadar na cachoeirinha ou na lagoinha ? 

                                      Acho que foi  tomar um  sorvete Spumoni  no Pinguim...  um picolé cremoso lá no Quixaba...ou no Bar do Mané Camelo...ou, ainda, estará brincando no coreto lá da Praça ?

                                      Teria ido ao Cine Getulina, ou  ao Cinema do Padre ...  ao Circo Ayres ...ao Parque  de Diversões, que armou lá perto do Bar da Areia ?

                                      Fora, talvez, comprar um pirulito, uma cocada, uma  sombrinha de balas,  algum  algodão doce...
                                     
                                      Será que foi no Bar do Bibí, que depois foi do Murakami, tomar refresco e  comer alguma empadinha feita pela Dona Olga, ou picadinho de carne no Bar do Dito e Paulo Watinaga,ou,  lá na Cantina 160 comer um pastel feito pela  Dona Norma  e seu Galvão , ou pela  Dona Zezé e seu Cirineu Volpini?

                                      Ou então,  no Bar do Zé Benedito,  comer um salgadinho e tomar  um gole de cacau... estará presenciando o footing, em frente ao jardim, ou ouvindo as músicas da “Voz de Getulina “?

                                      Com esse enorme calor, talvez, esteja chupando bala piper, para depois tomar um copo d’água, a fim de que ela fique gelada...

                                      Os seus colegas também haviam desaparecido... alguns foram embora para sempre... outros, para outras localidades...e os que pareciam estar na cidade , tinham outras características... estavam maiores, fisionomias  estranhas... os que não estavam ficando calvos, tinham os cabelos brancos... algumas rugas na testa e  nos rostos... parecendo que num toque de mágica, ou de interpretação teatral, pretendiam envelhecer...

                                      Crianças !   Meninos !  Moços ! Rapazes !  Vejam o  que fizeram, e ou,  estão fazendo de sua juventude ?

                                      Corram para refletirem-se nas águas do riacho, lá de baixo, e vejam que máscaras estão usando...

                                      Peçam que o riacho lhes devolva o menino de antes...tirem e rasguem as máscaras... a brincadeira terminou...

                                      Aqui  entre  nós, voltemos aos bons dias de antes... em que a gente era  mais gente... o menino  de então, possuía amigos e companheiros de verdade... pai, mãe,  avô, avó, tios, tias, primos e primas, padrinho, madrinha... hoje... não possui mais nada...
                                      Menino...Ô menino...onde está você ?!?
                                                       

Milton  Hauy

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O BLOCO DA FUZARCA

Certa vez, vieram de fora,  grupos de rapazes,  alguns   da capital, outros de Lins, para brincarem o Carnaval em Getulina.


                                      Se  encontraram, e resolveram  se alojarem em  uma casa bem grande, onde já havia um grupo de moças (ficava ali, onde hoje se encontra a Estação Rodoviária local) , a fim de ser a sede do “Bloco da Fuzarca”, denominação escolhida, posteriormente, pela maioria do grupo.

                                      Compraram as camisetas, mandaram pintá-las (porque naquele tempo, não era fácil  fazer estampas, como agora), de cor berrante, ressaltando o nome do Bloco.


                                      Os moços  iriam de calções pretos, as moças de shorts vermelhos, ambos com as camisetas brancas  pintadas, como acima narramos.


                                      E para aumentar o número de participantes, começaram a aceitar adesões de outra pessoas, pois ali na casa, apareciam sempre novas amizades, eis que os instrumentos (surdos, bumbos, tamborins, reco reco, triângulos,  cornetas, etc) quando executados nos  ensaios, à quase todo momento, aliados à cantoria,  chamavam atenção da população jovem e adulta de nossa terra.


                                               Assim é, que, os rapazes começaram a namorar algumas moças que aqui conheceram, justamente aquelas que encontraram já morando  naquela  casa.


                                               Era um agarra agarra danado, ali dentro daquela enorme casa, coisas avançadas para aquela época, e que davam  margens  aos variados comentários da vizinhança fofoqueira.

                                               Se fosse hoje, diriam que eles chegaram até a transarem ... a ficarem..., enfim  a se envolverem  tais como os casais apaixonados.


                                               Até que chegou os dias dos grandes bailes, e com eles as indecisões , de em qual clube brincar (?!?).

                                               Optaram para irem na primeira noite no  Salão do Clube Atlético Nove de Julho (ficava lá em baixo,  próximo onde hoje encontramos a Creche Coronel Barbosa e a residência da Família Sonehara); depois,  na outra noite, além de sairem pelas ruas de nossa cidade, acompanhando o corso, iriam no Salão da Sociedade Amigos de Getulina(SAG – que ficava ali onde hoje é a Fábrica de Móveis e Vidraçaria Popular do  seu  Elias  Hauy e Filhos, sendo o  patriarca citado, um dos fundadores dos referidos Clubes, sendo que o primeiro citado foi extinto anos depois, e o outro continua ,  atualmente funciona em Sede própria, e,  é,  mais  um dos orgulhos de nossa cidade), sendo que nos outros dias decidiriam onde fossem melhor acolhidos, pois  ambos tinham boas  e famosas orquestras comandando as animação;  e foi  o que fizeram.


                                                  Foram dias  inesquecíveis para aqueles jovens, todos enamorados, românticos, educados, brincalhões, não só com os integrantes de seu Bloco , bem como, com  todos os circunstantes.

                                               Ficara muito bonita a fantasia, e ainda fizeram uma grande bandeira, com os dizeres :  “O Bloco da Fuzarca Chegou !”.

                                               Chegaram até a ganharem  prêmios, como  o mais animado bloco,  e os melhores foliões do nosso carnaval, tanto num clube, como no outro.


                                               Até que chegou a hora da despedida, findara os dias de folia, e a turma tinha que se apartar...

                                               Trocaram endereços, abraços e beijos... houve até muitos casais que choraram.... assim, os de fora se foram , deixando  e levando saudades...
                                               No outro ano, voltaram para Getulina, e procuraram pelas moças de nossa cidade, dirigindo-se para aquela casa, encontrando-a no mais completo abandono, e  pelas ruas, não encontravam ninguém...


                                               Não se conformando, passaram a indagar pela cidade, declinando os nomes e as fisionomias de cada uma delas.


                                               Horas depois, ficaram surpresos, quando alguns  dos antigos moradores  lhes informaram , que aquelas moças, com as quais eles diziam ter ficado, e brincado o carnaval do ano passado, de  cuja descrição eles haviam feito, haviam morrido há mais de dez anos, e estavam enterradas no cemitério local !

                                                Aqui entre nós, naquele momento, em que lhes faltavam as pernas, e as cabeças pareciam rodopiar...  fazia-se ouvir  ao longe,  o iniciar de uma batucada , enquanto no  firmamento  apareciam as primeiras estrelas, juntamente com a  lua,  para aquele céu ornamentar...





                                                                           Milton  Hauy

domingo, 12 de fevereiro de 2012

F A Í S C A

Acho que já cansei de contar para vocês , mas devo repetir, que Getulina foi, noutros tempos, uma cidade muito movimentada.

                            A sua população era enorme, e a zona urbana possuía um vai e vem de gente contínuo e estrondoso, pois a zona rural, com seus extensos cafezais, era bem mais populosa que a urbana, pois aquela necessitava de constante mãos de obra.

                            E em nosso comércio, dentre muitas outras eficientes pessoas, trabalhava o sempre prestativo Faísca , moço loiro, de  baixa estatura, não era bonito, mas nem feio, bem  educado, que nascera na Baixada Fluminenese, mas adotara nossa cidade como sua terra.

                            Viera  trabalhar com seus tios, que eram ativos comerciantes, e por aqui ficara.

                            Ele trabalhava, no balcão do armazém de secos e molhados,   de segunda até sábado com afinco, até as l8,00 horas,  fazendo após o expediente normal, a entrega de mercadorias à vasta freguesia do estabelecimento, não só na cidade, como nas vilas e, principalmente, nas fazendas e sítios da redondeza.

                            Nos finais de semana, após o retorno de sua labuta, Faísca costumava, depois do banho, jantar,  e troca de roupas, frequentar os bares e bailes dos arredores, e, juntamente com sua turma de amigos, encher a cara de pinga e cervejas.

                            Mas, na segunda feira, logo pela manhã, refeito, enfrentava o batente  comercial, seguindo a mesma e constante rotina.


                            Mas, apesar dos pesares, ele era um moço econômico, que conseguia guardar muito dinheiro.


                            Um certo dia, foi notório, Faísca diminuíra na ingestão das doses das bebidas que continham  álcool etílico, e descobriu-se que estava de namoro com a Florisbela, uma mocinha que morava lá no alto da Vila.

                            Não demorou muito, para que fosse marcado o casamento dos dois, vez que ele ajudou no término do enxoval da noiva, comprando inúmeras peças  .

                            Foi marcado para  o  penúltimo sábado do mês, em razão de no último ser dia de pagamento e muito movimento no comércio, de modo especial no do seu tio.

                            A turma ficou contente, apesar de perderem um dos integrantes, que passaria ao rol dos homens sérios.

                            A semana  que antecedia o dia do casório foi revestida de muita correria, até um terno novo o Faísca comprou, para juntar aos demais que já possuía.
                            Na antevéspera do casamento caiu um temporal feio em nossa cidade, e o apelido do nosso personagem começou de outra forma espalhar-se pelo céu, era só faíscas que saiam,  seguidas  de estrondosos trovões, que faziam medo aos mais valentes  dos machos.

                            Quando se preparava  a despedida de solteiro do Faísca, com enorme tristeza, chegou a infausta notícia,   de que Florisbela havia sido atingida por um raio, vindo a  falecer instantaneamente.


                            Todos ficaram desesperados e,  o Faísca, nem se fala, chorava copiosamente, e juntamente com ele,  todos nós. 

                            Os dias que se seguiram , depois do  emocionante enterro da noiva,  foram horríveis.

                            Faísca tornara a beber, e de maneira mais desenfreada, como se a pinga pudesse fazer esquecer  os momentos dolorosos pelo qual passara.


                            E assim foi durante um ano, dois... até que em um baile, que a turma  conseguira levar o Faísca quase que na marra, volta ele amarrar-se em uma outra moça, Assanhacersa, que viera há pouco tempo de Minas, e estava ajudando seus pais, no cafezal do  Vinte de Maio.

                            O semblante do Faísca mudara, novamente diminui  ele na sua  bebida  , e parte de corpo e alma para o novo amor...

                            Meses depois, ouve-se falar que,   os dois já  noivinhos,  iriam  “juntar seus trapos” no mês seguinte, em cerimônia simples, pois o Faísca comprara todo o enxoval para  ela, bem como havia alugado e montado  uma bela casa na cidade, onde iriam morar, e ela cuidar,  pois ele continuaria  trabalhando no armazém.

                            A Turma do Barril, não podia deixar por menos, teria que fazer a despedida de solteiro do Faísca, com distinção e harmonia, o que foi feito, uma semana antes do  matrimônio.

                            Quase mataram o Faísca        , de tanta brincadeira e bebedeira !

                            Até que chegou o dia do casamento, e apesar de poucos convidados, a sua Turma tava lá à postos, aguardando  o momento tão importante.

                            Eis que chega em um táxi o Faísca, acompanhado de seus padrinhos, estava ele de terno branco, novinho, camisa da mesma cor,  com gravata borboleta  e sapatos pretos, esboçando sorrisos aos circunstantes.


                            E a Igreja Matriz começou a encher de gente, pois a cerimônia matrimonial  seria durante a missa, assim é que muitos devotos, não sendo convidados  para  a celebração daquela  união conjugal, comparecia para o  costumeiro e sagrado rito religioso.

                            Mais tarde, quase no horário de início da missa,  o Faísca já  estava impaciente, eis que chega o carro  que havia ido buscar a noiva lá na Fazenda, trazendo os seus padrinhos... mas, sem a noiva, pois esta, segundo os comentários posteriores, havia fugido com o leiteiro , levando  com ela todo o enxoval que o Faísca havia comprado ...


                            Seguiram-se falatórios, alaridos, choros e confusões, o pessoal da Turma, saiu pela porta da sacristia  amparando o Faísca desolado, enquanto o Padre, com muito custo conseguiu iniciar a Santa Missa.


                            Com muita ajuda dos parentes e amigos,  meses depois o Faísca  já estava saindo para frequentar  alguns “Bate-Sacos” na periferia, ficava mais tempo bebendo , cabisbaixo em algum canto do salão, e vários colegas procuravam distraí-lo contando anedotas , causos ,  acontecimentos  e  resultados de partidas de futebol...

                            Três anos depois de procurar bagunçar o coreto, frequentar, constantemente, a zona do baixo meretrício, e outras coisitas mais, do rol de solteiros, novamente, Faísca consegue arrumar uma nova namorada,” Vidinha”, apelido da mocinha pacata  Maria Rosa, filha de um funcionário aposentado da CMTC,  que chegara da capital e estava morando em nossa cidade.

                            A moça conseguiu trazer nova vida ao Faísca, já se notava brilho em seus olhos azuis , e sorriso franco em seus lábios...

                            Sua disposição e conduta era outra, voltou a trajar-se com roupas e calçados  novos, de maneira elegante, sorria, cumprimentava à todos,  dosando seus tragos, era um novo homem que voltara a encarnar   naquele corpo então triste e desanimado , deixando até de ser o criticado ébrio contumaz.

                            O novo par, passou a ser admirado, era visto,  e convidado à diversas festas,   ou indo ao cinema, circos , campos  de futebol, e até em destaque no carnaval de rua e  de salão.

                            Faísca e sua namorada,  pareciam ter, e  distribuir muita alegria, por onde estavam e passavam....

                            Uma coisa era relutante, falar em casamento, pois Faísca  tinha  aversão , em razão aos anteriores acontecimentos, que marcaram sua vida...


                            E mesmo assim, os amigos, os parentes, e a própria namorada, queriam fazer  ele esquecer  o lado  obscuro que tanto o atormentara no passado, mas, parecia ser difícil....

                            Passaram a ir à igreja, assistirem semanalmente a missa, comparecerem à outras cerimônias , inclusive  de batizados, crismas e  casamentos de pessoas conhecidas ou não   , a fim de tirarem o complexo que o pobre homem carregava , como  um pesado martírio.


                            Até que  em uma noite estrelada, o dileto  par, sentado em um banco,  sob o caramanchão que havia em nossa praça central , aos beijos e abraços,  resolveu falar em  unir suas vidas, unindo-se em matrimônio...

                            Ao saberem do acontecimento, a alegria foi geral, estava marcada a cerimônia civil e religiosa , que iria  regularizar a situação daquele simpático casal, que já era tão querido de nossa comunidade.

                            No próximo mês de maio, todos nós  estávamos convidados a  comparecermos  , no dia l5, tanto ao cartório civil, como na igreja , a fim de testemunharmos a união conjugal de Vitinha e Faísca, seria por volta das  l6,00 horas no Cartório, e depois  às l8,30 horas na Matriz, e após  tais atos, a festa com churrasco, enorme bolo, bebidas diversas  e doces,  no Clube Nipônico, alugado  especialmente para esta finalidade, com uma boa equipe de churrasqueiros, garçons e garçonetes,  devidamente treinada  para servirem  bem os inúmeros  convidados.

                            O noivo havia  comprado  e já presenteado a noiva com um lindo anel de brilhantes ,  uma casa , que já estava mobiliada, um par de alianças de ouro,   e também colaborado muito em completar  o seu  enxoval , inclusive pagando  totalmente  a festa e o  vestido de casamento .


                            Faísca havia contratado um táxi moderno de fora, e gratificado muito bem, antecipadamente, o motorista,  a fim de que vigiasse  a noiva, trazendo a mesma às cerimônias , tanto na do cartório, como na  da igreja .

                            Por volta das l5,45 horas, já encostava o táxi trazendo a noiva, com luxuoso vestido e o bonito anel ,  para a cerimônia no cartório civil, o que foi feito.

                            Os nubentes, bastante sorridentes,  estavam  felizes, assim como seus  amigos  e  demais parentes, presentes à aquele bonito acontecimento.

                            Após a dita cerimônia, a noiva,  e seus pais, voltaram, no  referido táxi, para a  sua casa, acenando ao noivo que  ficara com os demais convidados, aguardando o ato religioso, e conferindo os  últimos preparativos para festa no Clube Nipônico.
                           
                            Na casa dos tios do noivo, não paravam de chegar presentes e mais presentes, uma vez que quase toda a cidade estava convidada para o casamento do ano.

                            Os  segundos, os minutos,  e as horas foram passando,  até que os ponteiros chegaram perto do horário do casamento religioso, e todos nós fomos para a igreja matriz, aguardar o cerimonial tanto esperado !

                            A praça estava cheia de gente e de veículos, e a Matriz, toda enfeitada  e decorada com flores, rendas, tecidos  e luzes, de modo especial para a referida finalidade,   foi se enchendo também, cada um procurando um lugar nos bancos da igreja, para presenciarem o grande acontecimento .


                            Não demorou muito,  ladeado pelos seus padrinhos, o noivo com bonito terno azul marinho, camisa branca, gravata vermelha e sapatos pretos luzentes, adentrava  todo feliz, acenando aos que lhe cumprimentavam à distancia, indo para perto do altar, à espera de sua noiva , para, enfim, sacramentarem , sob a presença do Pároco e de todos os presenciais, aquela invejável união.

                            Cada segundo  de espera, era um grande martírio do noivo, e da Turma, que se encontrava completa  ali de lado,  em expectativa .

                            Já havia um atraso de dez minutos, mas, isso é comum , pois as mulheres costumam demorar para se arrumarem .

                            Meia hora, já estava sendo um tormento !

                            Aqui entre nós, saí de  fininho, quando ouvi os rumores de que a  Vidinha havia fugido com o motorista do táxi, e não tive coragem de olhar prá trás, não vendo o Faísca desmaiar lá perto do altar, ,  e saber depois, também,  de que tudo era verdade, sem se falar no imenso   desespero de  seus  parentes e amigos.

                            Triste sina a do Faísca, heim ?
.


                                                                  Milton  Hauy